O menino de óculos se aconchegava debaixo das cobertas para espantar o frio de um inverno que teimava em ser rigoroso. A combinação da temperatura, das nuvens escuras do domingo, do clima parado na rua, da televisão ligada sem som, do vento que soprava nas árvores, tudo era sinônimo de um pecado capital considerado delicioso: a preguiça. E ela era a rainha naquele quarto, iluminado apenas pela mudança das cenas na TV. Do 501 ao 670, nada agradava.

Assistiu a programas de decoração, de organização de armários, de comentários de futebol, de culinária. Deu mais atenção ao canal AXN, onde parou por um tempo no finalzinho de um episódio de uma série policial, que é reprisada constantemente. O controle remoto era a única parte do corpo do menino que saía debaixo do edredom.

Nas idas e vindas da programação enfadonha, surgiu a animada voz de Luiz Caldas cantando os adjetivos de Tieta, a “cabrita fogosa” de Santana do Agreste, personagem icônico do escritor Jorge Amado. Era a reprise da novela que fez tanto sucesso no passado, mas que mantém um texto atual diante da situação político-econômica do Brasil. A melodia da vinheta de abertura do folhetim fez o dorminhoco balançar o esqueleto, dançando em cima do colchão.

O menino limpou os óculos na camisa do pijama. Estava embaçado com tantos bocejos abertos naquele cenário do crepúsculo. Ficou pensando nas atitudes da mulher cheia de si, independente, rica e soberana no salto alto, movida por uma vingança contra a família e contra os moradores da terra natal, de onde foi expulsa na adolescência. De qualquer maneira, com qualidades ou defeitos, Tieta era revolucionária. Sua volta às origens, depois de passar vários anos vivendo em São Paulo, mexeu com o povo da fictícia cidade baiana. Suas atitudes, suas convicções, seus hábitos, seus mexericos. A sociedade de Santana do Agreste não seria mais a mesma com a chegada daquele furacão. Ela era um fogo: tirou um seminarista do celibato, levou luz elétrica para a região, aqueceu os romances adormecidos.

Santana do Agreste não seria mais a mesma com ela

No quarto, as divagações foram interrompidas pela ladainha de um mosquito irritante e pela luta que foi travada para espantar o bicho. Tomou chinelada, travesseirada, livrada. Cambaleante, mas ainda vivo, deu-se por vencido com uma biloscada certeira. Caiu morto.

Tieta ainda reinava nas reflexões, já que ela era uma mulher insistente, marcante, dura na queda como o mosquito. Falante pelos cotovelos. O menino se questionou, concluindo que o Brasil estaria precisando de uma personalidade como a personagem protagonista da novela global, inspirada nas convicções de Jorge Amado. Vibração ardente, articulada, líder, politizada, assertiva. Uma pessoa para desinquietar os pensamentos fracos da sociedade omissa, parada, que está aceitando a atual situação política do país… Ou se deixando levar pela correnteza das conveniências, pelas incertezas da crise econômica.

Ele desejou que a mulher voltasse ou que aparecesse alguém com a mesma energia, com suas críticas, suas ironias, suas alfinetadas nos coronéis que mandam nesta nação. Alguém para meter o nariz onde não era chamado. Contudo, com uma intervenção produtiva. Ou, pelo menos, reflexiva.

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