As ondas fazem a dança. Coordenadas pelo vento, que ora sopra sussurrando, calmo, silencioso, ora sopra intensamente, agitado, nervoso. Na mistura de cores, em tons de verdes e azuis, o branco se quebra na areia. Ao longe, no horizonte, detrás das montanhas, laranja, vermelho, rosa, misturam-se, sinalizando o sol em alvorada. O silêncio em segundos integra a música do balanço do oceano. Um espetáculo ininterrupto que acalma o coração, lágrimas felizes. A maré está cheia como as emoções daquele momento. Os olhos se perdem no infinito. Um sorriso, um agradecimento.

A atenção está voltada para as conchas, pequeninas, raras, mas ainda presentes na extensão da praia. Uma maior se destaca, rosada, com frisos fortes, certamente, morada de um molusco poderoso. Imponente, não se move, não se deixa arrastar, não deseja retornar à água. Do mesmo modo que se demonstra frágil, mostra-se guerreira, diferentemente, das outras que integram os movimentos do ir e vir do mar. A arrebentação é pulsante em todo o cenário alcançado pela vista. Na areia fina, nas rochas, no recife. Os coqueiros tremem no ritmo plural do vento. Ora para o sul, ora para o norte. De repente, para todas as direções, descompassados, mas atuantes na apresentação.

Ao longe, uma barraca coberta de sapê, abandonada, paredes caídas, barro seco, faz figuração ao lado de uma canoa quebrada. Em seu casco, lia-se o nome de batismo: Lua Anna, provavelmente, a amante do pescador, homenageada para agradar aos deuses marítimos. A curiosidade questionava a mente: o amor teria sido em vão, esquecido naquele deserto, sepultado para sempre? Ou teriam partido em outras aventuras, em barcos mais aconchegantes, para que o luar os abençoasse? Ah, lua! Quantos amores sua discrição protegeu? Ali, especulou-se que houvera um naufrágio, para o bem ou para a mudança. Naquela proa, paixão nunca mais.

Em relaxamento profundo, envolvido com os pensamentos sem destino, absorto sem questionamentos, em respiração ritmada com o equilíbrio das ondas: atenção, inspiração, expiração, cavado, crista, rebentação. Movimentos de contrair e de irradiar. Debaixo das pálpebras, cores multidimensionais se misturam dando o dom da aura: violeta, anil, azul – misturam-se feito fumaça. O cheiro de maresia, o gosto do sal, o tatear das partículas, o som do vento e das águas. Distante, a distração do canto de uma gaivota, solitária. Para vê-la, uma piscada sutil, e tudo se torna amarelo com a presença do astro rei, já majestoso no despertar da manhã.

Na sensação do calor, da brisa, os cabelos alvoroçados. Sentimento de gratidão pela saudade satisfeita. Durante um misto de lágrimas e risadas, ela surge sem alarde, paciente, sorrateira. A tartaruga faz companhia, admirando o instante, deslumbrando aquelas sensações de tranquilidade, de aconchego, de paz. Ela estica o pescoço, faz pose para uma reverência ao crepúsculo matutino, relaxa as patas, respira alto, mexe-se fazendo um convite com seus minúsculos olhos. Caminha para frente, disparada em sua velocidade natural, sendo envolvida pelas ondas. Entende-se o recado. Para celebrar a ocasião, um mergulho para lavar o corpo e a alma. A natureza se integra.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo

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