A vida é aterrorizante. De repente, você está trabalhando, acontece o inesperado. Dia 25 de setembro de 2019, por volta das 11 horas, um vento gelado esfria o corpo, a cabeça fica vazia, aparece uma súbita sensação de sono. A tela do computador fica mais brilhante e as letras do teclado saem do foco. O braço esquerdo paralisa, fica dormente, formigando, os dedos não se movem. É uma mistura de adrenalina, nervosismo e medo. Muito medo. Do rosto suado saem gargalhadas e uma explosão de sentimentos inexplicáveis. Na mente, acredito que a sensação desconfortante no braço é ausência das vitaminas da banana. E já programo uma passagem no supermercado para logo mais. O formigamento não passa, os dedos se curvam sem meu consentimento. Algo muito esquisito estava ocorrendo.

Hospital. Em menos de 40 minutos, a médica do Pronto Socorro faz exames clínicos e me encaminha para o neurologista. Ele foi rápido: “coloque o dedo indicador da mão direita no nariz”. Alvo certeiro. “Agora, o esquerdo”. O dedo bate na testa, na bochecha, no queixo. Fico assustado com a fragilidade da minha mão. “Vou te internar neste instante”, o médico disse ainda em pé no consultório, completando com a frase mais assustadora que eu já ouvi nesta existência – “você está tendo um derrame”. Senti o sangue descer para os pés, a respiração diminuir, a frequência cardíaca acelerar. Certamente, a imagem era de um vampiro na luz, de tão transparente que fiquei. Aí veio o meu temor: “posso morrer?”, soltei engasgado. “Sim”, respondeu o neuro com tamanha assertividade, que em uma velocidade da piscada dos olhos, revi o filme da minha história.

Tive muito medo. Comecei a tremer. Sozinho. A cabeça em um looping de montanha-russa. O cenário era o consultório, frio, mesa, computador e maca, sem janela. A impaciência do médico desejando almoçar, a secretária discutindo algo ao telefone. O braço adormecido, os dedos molengas. Sentado, assustado, engasgado, boca seca, umas fincadas no coração, fiquei sem chão, mas, mesmo assim, tive que caminhar solitário, com várias fichas nas mãos de volta às cadeiras do Pronto Socorro. Não tinha ideia de como lidar com aquele piripaque, até ser “acordado” do transe pelo toque do celular. Kênia estava ligando e o seu alô foi um alívio: “estou chegando ao hospital”. Ela e o marido, Ilânio, anjos que foram enviados para cuidar do meu sofrimento, até a chegada da minha mãe ao quarto, onde fiquei internado por cinco dias.

Visitas gostosas, telefonemas, mensagens no WhatsApp, envio de orações, de Reiki, a energia da minha família, dos meus amigos, dos meus alunos e dos colegas de trabalho, ajudaram a diminuir a tensão daqueles dias. Lá fora, alternância de chuva e de sol. Clima de sentimentos diversos, uma constante de pensamentos reflexivos. No leito, exames de sangue, aferição constante da pressão e da saturação, medição da temperatura do corpo e a temida ressonância da cabeça. Perguntas e mais perguntas de médicos e de enfermeiros. Pela primeira vez na vida, andei de ambulância, com destino a um laboratório na região hospitalar de Belo Horizonte. Foram poucos quarteirões, porém a experiência não foi agradável.

Ainda estamos buscando um diagnóstico mais preciso sobre o que aconteceu. Nos laudos, neurologistas e cardiologistas escrevem: Suspeita de AVC ???. E sigo fazendo exames, repousando, com medo, com angústia, chorando, dando gargalhadas, recebendo o carinho e a preocupação das pessoas. As três interrogações do laudo é o que me incomodam. Questionamentos sem respostas são um desafio para jornalistas. Assim, como as ondas do eletrocardiograma são um mistério para mim, tenho uma certeza: a vida é aterrorizante.

Paz e Luz.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal.
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo

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