Começou a observar o ambiente com outra percepção, mesmo morando naquele lugar há duas décadas. Havia algo diferente no domingo quente de outono. A janela, basculante, combinava com o cômodo, quase inexistente em construções modernas. Prédio de 50 anos.

Estava sentado à mesa, na copa do apartamento, caneca de cappuccino, biscoito de polvilho, ovos mexidos, presunto, banana amassada com canela. Café de hotel para fingir tranquilidade após a noite de pouco sono. O cheiro era de mofo. Confabulou que seria resquício das últimas chuvas, aguaceiro fora de época que se escondeu na parede. Contudo, sentiu que também estava “mofado”. Precisando de um estímulo para estar mais animado. Riu disso quando imaginou um lodo verde saindo debaixo dos braços, entre os dedos, cobrindo o corpo. O estado parado não combinava com a sua personalidade.

Como incentivo, coincidência ou não, um cenário se destacou entre os móveis de madeira de demolição, a decoração rústica, os objetos espalhados por ali. Três pequenos vasos decoravam a janela, pendurados por uma haste de arame. Três suculentas, de características físicas diferenciadas, mas com o mesmo comportamento do reino das plantas que sobrevivem com pouca sede e muita luz. Durante o rápido lanche da manhã, perdeu-se no tempo observando a história de cada espécie. O ritmo, a cor, a forma, o silêncio…

A primeira, menor, com poucas folhas, estava seca. Durou pouco entre a sua compra na Leroy Merlin até ganhar terra e areia em um vaso maior do que aquele em que se exibia na prateleira da loja. Viveu por uns cinco meses. Não haveria adubo ou alternativa que a ressuscitasse. Era frágil. Muito delicada. A qualquer mínimo toque soltava uma folhinha. Não progredia em tamanho mesmo tendo um lar mais vigoroso. Não dava sinais se fora regada, adequadamente, ou se recebia iluminação suficiente. Restavam traços de sua existência, porém, já não estava ali presente. Quase morta.

A planta do vaso do meio exibia serenidade. Semelhante a uma graminha apresentava certa plenitude. Não crescia, mas também não perdia partes. Água uma vez por semana era suficiente para enaltecer o seu verde. Se ficasse quatorze dias esquecida, em aridez, era indiferente. Uma normalidade de dar inveja. Vivia…

Robusta, com brotos espalhados em todo o vaso, pequenas hastes levemente dobradas seguindo a mesma direção. Com folhas brilhantes, a terceira suculenta exaltava beleza. Digna do nome: carnuda, forte, realmente, transmitia a sensação de suculência. Metodicamente, não estava na posição que sempre ficava, por isso o estranhamento em vê-la com as hastes viradas. Percebeu-se sua luta para alcançar o ponto de entrada dos raios solares pelas frestas da janela. Em poucos dias, em movimentos sutis ela ganharia novos ares, a guerra. Assim como seu observador. Aceitou a necessidade do sol, dos elementos da vida.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo

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