Minha prima Nora Ney sempre relata que “sonhar com dente quebrado é sinal de morte na família ou de alguém muito próximo”. Em textos que buscam significados para os sonhos, há outras várias explicações para aquelas imagens que vão surgindo durante o sono, cujos personagens são os moradores da nossa boca. Sentir dor pode ser anúncio para que não se cometa uma injustiça; ir ao dentista, sinal de boa sorte; dentes doentes que foram arrancados é possível que se faça um bom negócio ou se tenha oportunidade de emprego… E por aí vai.

Não tenho sonhado com dentes, mas esses danados estão me dando trabalho há muito tempo. Na vida real, todo ano, frequento o dentista por algum motivo. Devo ter brigado com a fada na infância. Fico me perguntando se esqueci de esconder o dente de leite caído debaixo do travesseiro, se cantei errado a música entoada para chamá-la na madrugada, se errei o alvo quando jogava o dente no telhado e prometia ser um menino bom. Ou a fada do dente me protege, pois tenho a oportunidade de ir ao dentista, ou ela fica me atazanando para sinalizar algum problema.

Quando era criança, sofria com os motorzinhos. Cáries eram frequentes por culpa das balas, dos chicletes, dos doces em excesso. Sem contar a escovação errada e apressada… Ou alguém esfrega a escova 20 vezes em cada lado como ensinam os especialistas? Tive reumatismo no molar. Perdi o dente, pedaço dele, coloquei peça e tirei de novo. Nem sei se tenho o dente ou se é uma resina. Tomei benzetacil durante uma semana à toa até descobrirem que a doença estava na boca. Esse dente já me fez passar vergonha: durante o vestibular, chupei um caramelo que grudou nele. Solto, pulou no chão provocando um barulho de atrapalhar todos os estudantes que faziam a prova. Na adolescência, o canino do lado direito perdeu um pedaço. Não me lembro o motivo – se bati em algo ou se foi a fraqueza do osso –, mas a obturação, hora ou outra, enfraquece e cai. Adulto, dor de dente, bruxismo, mandíbula frouxa, troca de amálgamas. O siso que o dentista arrancou sem a minha autorização. Quer mais?

Numa viagem de Belo Horizonte a Bom Despacho, parei para almoçar no Milhão. Comida mineira, da boa, que, raramente, tenho o prazer de experimentar no dia a dia. Sabe o molar que não é dente mais? Quebrou-se com a ajuda de um torresmo. Ganhei outro buraco e uma nova ida ao consultório dentário. Já fui em tantos, que se eu os listar numa crônica, os nomes dos dentistas dariam duas páginas. Sou habitué. Contudo, ainda tem novidade nessa saga odontológica. Três dentes estão ficando tortos, nessa altura da vida. Mordida errada que pode estar gerando minhas enxaquecas. Dores na mastigação. A fada anunciou que na casa dos quase quarenta anos de idade, Juliano terá que usar aparelho ortodôntico. E era só o que me faltava na lista dos bullyings.

Graças a Deus, nunca precisei de aparelho, até então. Meu sorriso correto sempre foi elogiado. Óculos fundo de garrafa, magricelo, pinta de nerd, menino da igreja. A gozação dos colegas sempre me deixou mais forte e bem-humorado. Resta-me rir com as piadas que falam da boca de lata, da boca de arame, do queixo Mandíbula, o vilão do desenho do He-Man. Por uns dois anos, o sorriso será metálico. Ainda esgano a “fadinha”, caso a encontre nesse período. Ô entidade sacana.

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