Depois do AVC, a cabeça deu uma virada. Diria que foi, literalmente, uma rima, um eco, uma pirada. Vi o filme da vida em poucos segundos me dizendo que era necessária uma mudança. Na alimentação, nos exercícios físicos, na convivência social, nas leituras, no trabalho. Aprendi no susto que era preciso desacelerar. Ficar mais quieto, usar o tempo também para procrastinar. Usar o ócio para descansar o corpo, a mente. Na experiência de saber da proximidade da morte, decidi renascer para outro momento, outras oportunidades, reviver os sonhos de infância. Curar mágoas, procurar amigos esquecidos, planejar o futuro, mas, sobretudo, experimentar o presente com mais presença. Ser mais família, por exemplo.

Quando ouvi o médico dizendo “você está tendo um derrame”, flashes muito rápidos de cenas do meu cotidiano me contaram que de nada adianta acumular tesouros. Eles representam algo significativo somente para mim, pois eu que reconheço a história de cada objeto das inúmeras coleções que tenho espalhadas pela casa. O que fariam com as minhas “coisas” após o velório, perguntei-me. Iriam para o lixo, doariam, criariam um museu? Saber a resposta é desnecessário. Além disso, fiquei pensando nas pessoas que me cercam, naquelas que se foram, em outras que passaram por alguns momentos, nas que não cruzam mais o caminho por falta da desculpa do tempo, do comportamento, das ideias que não combinam.

Lembrei-me da Alegoria da Caverna, ensinada por Platão a Sócrates: quando estamos no escuro, olhando para a parede, inertes ao desenrolar dos fatos, acompanhando as sombras, com medo das imagens disformes, duvidamos do que está lá fora. Não acreditamos no outro, que teve a coragem de ver o sol, de assumir uma nova postura de vida, de se iluminar de conhecimentos. Vemos, mas não enxergamos, já que é cômodo não enfrentar a realidade desconhecida. Qual o motivo de se movimentar diante do confortável? Assim, foi na pele, que descobri que a experiência terrena é um sopro. Realmente, a vida é curta. Era preciso sair da caverna do comodismo, da gruta das ilusões, do buraco sem fundo, da toca das certezas absolutas.

Fiz faxina, doei roupas e livros, apaguei e-mails, matriculei-me em cursos, resgatei contatos, procurei amigos, cortei o cabelo, troquei os móveis de lugar, revirei a alma. Ressignifiquei o sentimento, o trabalho, a empresa, o sonho. Fui ao passado para salvar memórias, buscando o encontro com os antepassados para reencontrar valores que estavam adormecidos. Doeu. Chorei, sofri, gargalhei. E, internamente, algo aconteceu, pois até meus órgãos se moveram em um processo de faxina. Ser balzaquiano é um divisor de desejos e o corpo responde, em silêncio e na explosão de transformações. O diagnóstico é certeiro: tudo muda, quando decidimos traçar outra rota. Ainda não tenho grandes planos nem a coragem de radicalizar em alguns aspectos. Verdade é: sou e quero ser mais feliz. Ponto.

Juliano Azevedo
Terapeuta Transpessoal, Jornalista e Professor.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo

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