Tédio dá fome? Ficar parado, sem fazer nada, nem usar o cérebro para agitar os pensamentos, é angustiante. Sinônimo também de ansiedade. Essa sensação que provoca excitação de alguma maneira, por sentimento de perigo à vista, por medo, pelo anseio de que algo aconteça positivamente. Ansiedade e tédio, dupla das barrigas vazias à espera de comida. Ou que estimulam o enchimento delas. Grávidas comprovam: é cada desejo esquisito para conter a emoção da maternidade. O tempo lento do relógio também contribui: estar à toa movimenta o estômago.

A mulher e o filho ficaram presos no hotel à beira mar por causa da chuva incessante. Nada de praia nem piscina. Sol, só ouviram dizer na previsão televisiva que ele poderia aparecer um dia, mas que seria entre as nuvens. Pequeno quarto, livros já lidos, nada no frigobar, papos encerrados, conversas vazias nos grupos do WhatsApp. Pingos fortes batendo nas janelas. “Estou com vontade de algo que não sei o que é. Preciso respirar outros ares. Encerrar essa viagem com um gran finale. Contudo, sair debaixo desse toró é impossível”. “Você está é com fome. Ócio estimula movimentos gástricos”. “Pode ser. Fome de quê, afinal? Nem sei se é fome mesmo, porém, ser for, queria algo diferente. Comer alguma iguaria”. “Talvez uma fruta exótica”, a mãe encerrou a conversa.

VOCÊ TEM FOME DE QUÊ?

Silêncio nas quatro paredes. De repente, o borbulhar do estômago lembrando da recomendação da nutricionista que ele deveria ser alimentado a cada três horas. O rapaz pensou na letra da música da brincadeira Caí no Poço: pêra, uva, maçã, salada mista, diz o que você quer sem eu dar nenhuma pista. Não queria nada daquilo. Ansiava pelas diferenças gastronômicas. “Tô com fome”, repetiu. A mulher estimulou um desafio para acalmar a angústia do ambiente: “cite dez frutas que não possuem a letra A em seus nomes”.

Começaram a remexer na memória e recordaram daquelas servidas no café da manhã: kiwi, pêssego, coco. “Ainda faltam sete, mas é muito difícil. Não existe nenhuma mais”. Ficaram chutando palavras em brainstorming, para que outras frutas viessem à tona, como se jogassem adedanha, fazendo listas de coisas comestíveis: melão, mexerica, nectarina, caju… Todas são grafadas com a líder do alfabeto. Entretanto, com a ajuda do caju se lembraram do umbu. Depois de minutos de pensamentos e uma forcinha da internet terminaram a seleção: buriti, mirtilo, murici, noz, pequi, figo. Será que todas são frutas mesmo?

Mãe e filho deixaram a fome de lado e se aprofundaram no estudo. Descobriram que as frutas são classificadas em subtropicais ou do Mediterrâneo, em tropicais, em equatoriais, originárias da Ásia ou da América do Norte, em cactos e outras plantas suculentas e em herbáceas anuais. A lista é gigante. Leram sobre várias que podem ser levadas à boca. A maioria tem o A na grafia. Focaram nas exóticas que também são estranhas até na nomenclatura: noni, kino, ugni, sicomoro, bilili, borojo, breu, cerillo, cutite, dendê, fukugi, imbé, incó, kokum, kundong, licuri, lillypilly, loengo, louvi, lulo, mundu, oiti, olho de boi, orobô, til, tucum, umiri, uxi, veludo, zilo, murumuru, uricuru, xiquexique. Riram muito e duvidaram da pesquisa na internet. Mas elas estavam lá listadas como frutas.

Conclusão: além de fome, tédio também dá conhecimento. E que as grávidas não exijam dos companheiros nada estranho citado acima, porque não será fácil encontrar o desejo nessa miscelânea maluca. Depois desse texto escrito, ainda recordaram de outra fruta: o cubiu.

Você já comeu cubiu? Conhece alguma fruta exótica? Comente aqui embaixo:

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