Há dias que dá vontade de ser a lua em eclipse. Dar uma sumida por uns instantes. Fundamentalmente, algumas várias horas. Esconder, recolher, adormecer. Ser sombra. Receber a sombra. Contar até 10 na brincadeira de esconde-esconde. E voltar às fases transitórias da essência.

Há dias que somos cheios. Noutros, somos minguantes. E está tudo certo.

Há dias que dá uma ansiedade para ser o sol em eclipse. Parar de iluminar por minutos, esfriar a mente agitada. Esquecer o calor, entender as barreiras, entregar-se ao fenômeno da caminhada com calma. Após o acontecimento, natural, astronômico, perceber que tudo é efêmero. Em dois minutos ou em quatro minutos e trinta e dois segundos. Depende! Certo, errado, talvez?

Há dias que somos raios. Noutros, somos energias. E não é preciso estranhar.

Há dias que gostaria de ser a Terra em trânsito. Em translação, ou na rotação, seguir a elipse destinada; voltar ao próprio eixo, à centralidade. E assim, entender os movimentos que o mundo dá. As voltas em si e na estrela incandescente, na transcendência a ser experimentada, alcançada. Em velocidade própria, compreender que o ciclo recomeça, recomeça, recomeça.

Há dias que somos foco. Noutros, somos peão giratório. Ambos, necessários ao equilíbrio.

Há dias que aspiro em ser percurso. Brotar na montanha, tornar-se rio. A fonte, a nascente, a água, o mar. Desbravar fronteiras. Com destreza, locomoção para enfrentar as barreiras, para nutrir. Vale até bater, para furar. Insistência também é meta. Procurar atalhos, do mesmo modo. Diferentemente da Terra, não passar pelo mesmo local uma segunda vez. Ser percurso é aprender a lição.

Há dias que somos gota. Noutros, somos oceano. Na profundeza ou na partícula, somos únicos, o todo.

Há dias que quero ser planta. Apreciar as raízes, ter um caule vigoroso – tronco que sustenta. Galhos frutíferos. Galhos que dão frescor. Folhas que protegem, alimentam. Doar todas as potencialidades do ser. Da semente à madeira, do oxigênio ao abrigo, da flor ao fruto. Ser planta é usufruir da conexão do sol, da lua, da água – unidos para o percurso da vida. Para se fazer vida.

Há dias que somos nutridos. Noutros, somos esperança. Há dias que haverá colheita. Lamentavelmente, escassez. Contudo, a busca é a plenitude.

Há dias que me sinto o Universo. Ser grande, inalcançável. Ser miúdo, próximo. Uma dúvida, a invisibilidade. O encontro dos mistérios, a certeza da presença. Acima de tudo, na imensidão da mais alta potência matemática, existe a composição nuclear, no minúsculo ainda não visto. Eu sou ele. Estou nele. Conecto-me pela inspiração e expiração, irradiando para fazer luz, contraindo para fazer amor. Para abraçar, para o aprendizado, para os sentimentos. Acolhimento.

Todos os dias somos humanos.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal.

E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo

Compartilhar

Comentários

Veja também

19 de junho de 2019

CURRÍCULO: ARRASTAR, ENGATINHAR, ANDAR E CORRER

“A vida é feita de ciclos”, disse Laís filosofando no corredor da empresa onde estagia. Questionava-se em relação à trajetória profissional após a formatura que viria em breve. Não queria parar de estudar, mas desejava um descanso, férias escolares de verdade, após uma caminhada ininterrupta de 19 anos, do maternal à faculdade. Ansiava uma pós-graduação, […]

30 de maio de 2019

FRUTOS, BORBOLETA: A VIDA

Debaixo do chuveiro, a água animando a sonolência da noite bem dormida. Naquele instante, as ideias vão surgindo, projetos, textos, demandas. A lista dos afazeres do dia é repassada para seguir corretamente a agenda, que é calculada de acordo com o correr dos ponteiros, sem atraso. Característica dos capricornianos, atrelados ao tempo, ao trabalho, à […]

08 de maio de 2019

FAZENDO FAXINA

A campainha toca, sinal de visita. As portas dos armários são fechadas, as camas estendidas, objetos espalhados na mesa da cozinha ganham abrigo na parte escura da cristaleira. O quarto dos fundos, ainda bem que fica nos fundos, é inacessível aos olhos e também aos moradores que não encontram nada nas prateleiras que empilham tudo. […]