Esta crônica tem três personagens: o tio, o menino e a mãe do menino. Pessoas que viveram na Passagem, distrito de Bom Despacho, nos anos em que os militares davam as ordens no Brasil e a localidade possuía uma importância política na Cidade Sorriso. Tempos em que o barro dominava as estradas na época das chuvas, as pontes eram feitas de toras de madeira e os Rodrigues brigavam com os Cardosos para saber quem era o dono do cruzeiro construído nas redondezas do povoado. Debaixo da cruz, muitas histórias e celebrações para espantar os fantasmas que assustavam a região. Nada de divino…

Origem de cruzeiro é disputada pelos Rodrigues e pelos Cardosos

O tio era o proprietário do comércio. Armazém de cereais vendidos a granel, cerveja, pinga, carne, frutas, guloseimas. Lá vendia de vara de pescar a tecidos finos, vindos da capital mineira. A fama de avarento, mão de vaca, sovina contrastava com sua melhor qualidade: o homem era um vendedor, comerciante dos bons, por isso era exigente. O menino, sobrinho por parte de mãe, aprendia o ofício do negócio desde pequeno. Saía da fazenda dos pais para ficar atrás do balcão e fazer o que fosse pedido. Magricelo, alto, atento às artimanhas das vendas, queria ser reconhecido e elogiado pelos serviços prestados.

Certa vez, o menino, acostumado a percorrer aquelas eiras no lombo do cavalo, saiu cedo para recolher ovos das fazendas. Esses eram vendidos às dúzias para as quitandeiras na Casa Barateira. Dois cestos de cada lado do animal transportavam o produto delicado. Cada ovo era enrolado individualmente em palha de milho ou em folha de bananeira. Jornal era raridade. Aquelas caixas de papelão, conhecidas como pente, não haviam chegado por ali. O menino era cuidadoso, principalmente, se raios e trovões, aliados do aguaceiro dos céus resolvessem aparecer. Naquele dia foi assim: um toró de dar enchente. Água que não parava.

Na busca de aplausos do tio, o menino enfrentou o desafio imposto por São Pedro como um guerreiro. Desviou de árvores caídas, dominou as rédeas e o medo do cavalo assustado, passou por trilhas desconhecidas para fugir da enxurrada persistente, mudou a rota porque uma ponte havia caído, entrou no rio caudaloso numa parte em que a correnteza ainda não estava perigosa. Ele foi um bravo herói, protegendo a si e as mercadorias encomendadas.

Sua mãe, preocupada, angustiada, com dores no peito, por causa do sumiço do rebento, rezou a ladainha com a lista de mil santos. Estava escuro, a noite escondia inúmeros perigos, ainda mais debaixo de chuva. Nada dele dar notícias. Mas o menino estava a salvo. Sobretudo, no mesmo instante da oração, os ovos foram entregues ao tio patrão, que sorria debaixo do bigode, contabilizando quantos dinheiros iria lucrar com aquela venda. Os cestos estavam lotados.

O menino estufou o miúdo pulmão, como um soldado em formação diante da bandeira. Não havia sequer uma polegada do corpo dele que não estivesse molhada. Uma poça d’água se formou no chão de cimento queimado. De braços para trás, ele era o próprio orgulho, à espera da condecoração, da benção do tio, das palavras benditas que seriam proferidas por aquele feito fantástico. Na sua imaginação, seu uniforme era de um cowboy hollywoodiano que salvou o dia.

O comerciante abria as mais de quatrocentas embalagens. Conferia detalhadamente. Abriu a boca para falar, porém, antes, colocou a mão nos ombros do sobrinho. Esse se remexeu e levantou os olhos. E ouviu o maior desaforo de toda a sua vida: “da próxima vez, você seja mais responsável, pois você quebrou um ovo. E vou descontar do seu salário”. Lá na sua casa, sua mãe rezava: “São Geraldo, rogai por nós”.

Mercearia D. Zulmira, atual mercado na Passagem

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