Esta história é dos tempos antigos, quando a catequização estrangeira veio para o Brasil, trazendo as tradições europeias religiosas para as pequenas cidades do país. Congregações enviavam seus mensageiros para pregar a palavra de Cristo em latim, mas eles falavam em línguas difíceis com a comunidade. Alemães, italianos, franceses. De olhos azuis, loiros, altos, bonitos, porém padres, castos, puros, com votos de celibato eterno. As beatas pecavam em pensamento. E as casadas agradeciam por eles celebrarem a missa de costas. Este caso, dizem, aconteceu nas bandas de uma região banhada pelo rio São Francisco.

Foi um bafafá quando o Padre Lorenzo desistiu da batina. Enfrentou a Terceira Guerra Mundial: a boca nervosa e fofoqueira do povo. De sangue quente, nascido em Roma, estava acostumado com desafios extremos. Foi enfermeiro na primeira grande batalha que dividiu a Europa em Aliados e em Impérios Centrais. Foi mentor espiritual na Segunda Guerra, nos conflitos em que Hitler dizimava tudo. Não torcia nem lutava por lado nenhum, pois queria a paz entre as nações. Cometeu um crime: escondeu judeus e ciganos no porão da igreja. Teve que fugir escondido em um navio que desembarcaria no Rio de Janeiro depois de cinco meses de viagem. Obrigou-se a ficar em jejum forçado porque na embarcação não havia comida para a tripulação nem para os passageiros.

Nas terras tupiniquins, enfrentou a malária, a Revolução, a ditadura, a seca nordestina, até ser pároco nas Minas Gerais, quando encontrou o céu, o feijão tropeiro, o mingau de milho. E também o amor. Resistiu às artimanhas do sentimento, fez penitência, tomou banho de água gelada no rio Lambari, confessou-se com o bispo, revelando seu maior segredo. Conheceu mulher. Não qualquer rameira, como diziam as curiosas que insistiam em saber qual era o mistério do padre. Nem mula sem cabeça. Seu superior disse no confessionário que a dor da paixão não tinha explicação. Ele deveria encarar as decisões do coração.

A mulher do padre

Lorenzo, ex-padre, casou-se com Maria Madalena, ex-irmã de caridade, devota fervorosa de Santa Inês. A esposa também assumiu o risco dos desatinos do amor. Abandonou o hábito e a congregação. Utilizou o diploma de magistério para dar aulas a alunos especiais. O marido dirigia a escola, que ficava na zona rural. Ele era enérgico, usava a palmatória para dar lição à molecada que não aprendia o bê-a-bá, mas sabia roubar laranja, galinha e colocar estalinho no rabo dos gatos. Educar aqueles meninos não era nada para quem saiu fugido da Europa debaixo de balas de canhão, enfrentou a fome, quase morreu com doença tropical.

O casal foi abençoado com a maternidade. A mulher do padre estava radiante no dia do parto. Já o genitor da criança não tinha mais lugar para o suor escorrer. O médico ajudou no parto normal. A mãe nem força fez. Sorria com o sonho realizado. Lorenzo era muita emoção acumulada. Teve vertigem ao ver o filho nascer. Ninguém percebeu quando ele bambeou, rodou, caiu no chão desmaiado. A esposa teve alta à tarde, levando o bebê no colo. O ex-padre, pai de primeira viagem, guerreiro, ex-combatente das grandes guerras, famoso pela truculência e pelas atitudes de um coronel, recebeu uns pontos na testa, quatro dias internado e uma semana de atestado médico para aguentar os buchichos dos ex-fiéis. Ganhou fama e mais um adjetivo para sua lista de atributos: frouxo.

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