…muitos anos de vida! Viva!

Começa a guerra.

Tumulto. Empurra-empurra. Cotoveladas. Chute nas canelas. Agressões verbais, nos olhares enfurecidos, nas mãos frenéticas. De repente, quem nasceu com os dois braços se transforma em um polvo imaginário, mas com alcance real. Abraça tudo que consegue carregar. Tapas, farpas, ódio. Boca espumando. A fúria dominando o ambiente. Os pecados da ira e da gula transformando os convidados de um aniversário em seres das cavernas. Alguns observam, arregalados, o cenário devastado pelas bombas. Outros arregalam o globo ocular para enxergar além do alcance o próximo alvo.

Em milésimos de segundos, a mesa está “limpa”. Sobram forminhas de papel colorido, flores porta-bombons, enfeites que não são removíveis e o aniversariante tentando apagar o fogo persistente da vela, ocupado em planejar a realização de um sonho que não pode ser revelado. Até a decoração some antes do suspiro da exclamação final que fica depois do entoar do grito viva sicrano, viva fulana. Quem não é treinado nas artimanhas da sobrevivência em bufês (escassos ou abundantes) vai embora chateado e com a certeza que se f* na hora da distribuição dos doces.

Cantar o bordão é big, é big? Em festinha de criança nem precisa do “com quem será?”. Afinal, elas já não gostam dessa parte da canção nem estão em idade para pensar em enlaces. Vamos reduzir o ritual e partir logo para a divisão dos bens. A criançada quer apenas as guloseimas que foram endeusadas durante toda a comemoração, intocadas naquele altar sublime até o grande sacrifício da devoração – no dicionário: ato ou efeito de devorar; com acréscimo poético: ato ou efeito de se comportar como dragões.

Os adultos também desejam a partilha, mas não se contentam com o mínimo previsto para cada um pelo cerimonial à época do orçamento feito pelos anfitriões. A máxima é a vantagem, o jeitinho, a ganância: enquanto conseguir carregar, mais comida vai levar. A cena é semelhante aos dias de Black Friday, após o instante em que as lojas sobem as portas. A multidão se espreme para conquistar o Santo Brigadeiro e todo o restante da nobre açúcar santificada em forma de bolinhas ou compridinha como os croquetes, atualmente, em versão encapsulada com a terrível pasta americana.

Normalmente, quando se calcula uma festa, os doceiros recomendam produzir a média de quatro a seis docinhos por pessoa, para ser servido como sobremesa. Ou seja, antes os garçons já circularam os salgadinhos, os petiscos, as mini-pizzas, os frios, o churrasco, em algumas ocasiões, até o jantar. Contudo, os gulosos não entendem de matemática. Querem encher os bolsos com 28/42 doces para serem consumidos durante os sete dias seguintes à celebração. O convidado foi a uma festa ou foi fazer a feira da semana? Maria Augusta Nielsen, criadora de tantas misses e regras de comportamento social, nem revira no túmulo com tanta vergonha dessas atitudes. Haja método SOCILA para ser aplicado por aí.

Quem é comportado, sofre. Não sobra nenhum granulado para adoçar o mínimo sequer da vida. Nessa guerra de fartura, faltam gestos de gentileza, de solidariedade, de companheirismo, de delicadeza, de amor ao próximo, sobretudo, educação. Mesmo na escassez, tem para todo mundo se a honestidade prevalecer. Se ninguém ainda deu o toque, vai um recado bem direto: PARA, QUE TÁ FEIO. Muito feio. E desnecessário.

Parabéns para você!

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta.
Chefe de Redação da TV Alterosa
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo

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