Ama dirigir. Pegar a estrada para desbravar o desconhecido, aventurar-se nas redondezas da cidade onde mora, observar a paisagem de Minas Gerais. Suas montanhas verdes coloridas por ipês dos acostamentos, seus pássaros cantadores que buscam a sombra das árvores para descansar. Nem se importa com o tempo passando, com as distâncias que percorre enquanto desfruta do passeio de carro. Dirige todos os dias para ir ao trabalho. Dirige para fugir das lembranças do suor da labuta. Dirige para se divertir. E para conhecer novidades. Ele é um apaixonado por cores. Quer encontrar tons diferentes para se inspirar.

Da janela, fica pensando na imensidão de possibilidades oferecidas por lugares inexplorados. Sonha, fantasia, conecta-se com pensamentos criativos no mesmo instante em que deixa o vento forte balançar seus cabelos. Quer ir sempre mais longe, pois tem certeza que encontrará mundos que não estão nas fotografias de revistas nem em pesquisas na internet. Cada viagem é uma descoberta. De olho no volante, na velocidade permitida pelas leis, atento à natureza. Sente a energia das rodovias, recarrega-se. De tanto rodar por aí, dizia que era capaz de conhecer o cerrado, a Mata Atlântica, o sertão. Mas faltava um lugar tão perto de sua casa, que prometia, constantemente, ir até lá em qualquer oportunidade de folga.

Certa vez, quis fazer outra rota. Ainda indeciso olhou na lista de prioridades para onde iria no próximo fim de semana. Queria sentir os cheiros do mato, percorrer caminhos novos, aprender algo, almoçar pratos exóticos. Uma miscelânea que não dava liga, até que se lembrou do lugar que desejava há tempos estimulado pelas divulgações jornalísticas na televisão. Marcou data, hora e a companhia de uma amiga para visitar Inhotim, em Brumadinho. Passaria o sábado no centro de arte, curtindo, ampliando o conhecimento de obras contemporâneas, lendo sobre artistas apresentados na faculdade. Chance de ver a mistura da natureza com galerias artísticas.

Nas redondezas, passando por Casa Branca, atenção à sinalização para não se perder nas curvas. Atenção às cores enaltecidas pelo sol que estava muito brilhante naquela ocasião. O amarelo até ofuscava a visão do motorista, que tinha olhares também para reconhecer alguma coisa que já não havia visto em suas andanças pelas terras do Estado das gerais. Estava maravilhado, comentando com sua passageira que naquela viagem sentia muita felicidade. Experiência única, renovadora, para dar ânimo para outros projetos.

Ao longe, avistou uma plantação diferente. Uma fruta ou uma flor de tons azulados ainda irreconhecíveis. Seria uma planta ou ilusão óptica? Sem resposta, pois mataram as aulas de botânica. E com aquela cor, só se fossem milhares de orquídeas da mesma espécie, no mesmo espaço. Haja grana e bom gosto na mesma fazenda. A curiosidade dominou o carro. Os amigos ansiaram em chegar perto daquela plantação. E quanto mais próximos, mais o azul se destacava. Poderiam ser uvas que rebatiam a luz solar? Ou uma raridade de mirtilos plantados na região tropical? Fizeram uma aposta. Ele afirmou que eram hortênsias como as de Gramado. Ela quis que fossem lobélias, daquelas usadas em jardins para valorizar o paisagismo.

Riram muito. Quase passaram mal de tanto gargalhar, com dores na barriga, quando viram de perto o motivo de suas dúvidas. Não havia nada de exotismo ali na beira da estrada. Não se aguentaram com a confusão que fizeram. Não era flor nem fruta, mas era planta. Naquela fazenda, havia sim muita fonte de vitamina K. Uma lavoura enorme de couve, de folhas grandes, alimentadas pelo astro rei. Pelas gotas de orvalho que caíram pela manhã daquela viagem divertida. E cheia de couves!

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