Vivo a angústia do tempo. No caso, a falta dele. Vivo desejando ter mais tempo para me ocupar de outros afazeres que me tomam muito tempo. Talvez eu esteja precisando de tempo para não fazer nada. Porém, o nada também me angustia. Sinto que ficar parado é perda de tempo. E o ditado relaciona o tempo com a perda de dinheiro. Logo, ficar sem tempo e sem dinheiro complicam meus desejos de procrastinar. De me dedicar ao nada. Infelizmente, se não tiver nada, não dá nem para nadar.

Filosofias à parte, ando querendo mais tempo para ler, para assistir a séries de televisão, para escrever pensamentos. Para trabalhar em projetos pessoais, para viajar por cantos desconhecidos, para visitar amigos que me dão saudade, para trocar carícias com a família e com o meu amor. Para descansar disso tudo.

Quero ter mais tempo para pensar sobre as variações do tempo: as ocasiões, os instantes, os minutos, os momentos, os milionésimos de segundos, os séculos, as décadas, os anos, os meses. Para viver o meu tempo, o meu dia. Para ficar descrevendo o tempo que não tenho.

Recentemente, uma desidratação me deixou de molho em casa. Só me restava a cama, o sono, as bolachas feitas de água e sal, e farinha. O ócio. E o tempo. Disseram-me que deveria aproveitar aqueles instantes de solidão para colocar a vida em dia. Fiquei pensando se conseguiria resolver diferentes questões em apenas 18 horas (nas outras seis, certamente, estaria dormindo). Passei boa parte dessa ocasião só refletindo. Perdi minutos preciosos gastando neurônios em busca de respostas. E nada. Perdi tempo.

Li um livro, dormi. Vi um filme, dormi. Comi pipoca. Água, água, água. Dormi. Fui ao banheiro nos intervalos, buscando razões para a maldita metáfora do rei em seu trono, pois essa coroação é muito dolorosa. Coloquei como meta o término de uma obra de Jorge Amado, que está me empacando e me impedindo de iniciar outras leituras. Jubiabá, personagem que dá nome ao texto, disse que, na página 281, “as estrelas são os homens valentes que morrem”. Parei de ler para me angustiar com a falta de tempo. Afinal, há muitos anos não reparo nas estrelas.

Lembrei-me que não tenho notado as horas escuras do céu. Logo eu, o “diferentão” do interior, com sotaque da roça, morador da capital, que buscava nuvens escondendo as estrelas para previr se haveria chuva por vir. Logo eu, que fazia simpatias escolhendo as constelações mais promissoras ao pedido secreto. Logo eu, que sabia localizar o brilho de Vênus e admirava o Cruzeiro do Sul nas caminhadas noturnas, em acampamentos juvenis. Não tenho olhado para cima, confesso. Não tenho percebido a morte de gente valente que está virando “estrelinha”.

É a angústia do tempo. O desejo de deitar na grama em noites estreladas para observar e resistir à tentação de apontar para as estrelas mais brilhantes. Lá na minha terra contam que nascem verrugas nos dedos quando desbravamos a Via Láctea. Queria que meu tempo não tivesse a velocidade da luz. É o fim. Do texto e do tempo para entregá-lo pronto.

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