A conversa era com amigos do trabalho, durante o horário de almoço. Estávamos com fome no feriado e o pedido do prato feito já completara 40 minutos. Atraso intenso. O estômago reclamava com ansiedade. Estava demorando demais a chegada de um bife ancho, salada e batata frita. Como falam em Bom Despacho: “a boca já estava como um córrego”, de tanta saliva acumulada. (Na verdade, a frase original é carregada de Rs e de sotaque local – a boca táuuum córrrrrgo). Momento ideal para falarmos de comida e das lembranças que elas trazem.

No final dos anos 1980, o Brasil vivia uma crise econômica. Eu era criança e me lembro bem da inflação alta, do congelamento dos preços, da desvalorização do dinheiro. Vocabulário do meu pai quando voltava da mercearia, reclamando que o preço do leite era tantos cruzados de manhã e que à noite já era outro. A situação mexia com os bolsos e com o que haveria nas refeições. Lá em casa, podia faltar tudo, menos carne, dizia meu pai amante de churrasco e da mesa farta. Por isso, comíamos carnes normais, de boi, porco e frango, mas também as exóticas como cavalo, coelho, cobra, tatu. E as partes desses animais como fígado, coração, rim. Enfim, o que fosse possível fritar, estava no nosso prato. Era o que tinha e não devíamos reclamar da fome. Passávamos bem.

Certa vez, numa viagem a Nuremberg, na Alemanha, vivi uma experiência gastronômica inusitada quando entramos em um restaurante típico da cidade. Antes de turistar, aprendemos algumas palavras em alemão para entender o cardápio: frango, peru, batata. Porém, nenhuma delas estava lá. E não aguentávamos mais procurar outro local para almoçar às 16 horas. A garçonete não entendia nosso inglês e nós não queríamos arriscar um prato ousado. Olhamos a comida dos vizinhos na mesa ao lado. Parecia uma carne com molho madeira, purê de batata. Apontamos dizendo querer o mesmo. Fábio, meu amigo de viagem, comeu, achou estranho e revelou: “é fígado”. Eu chutei diferente: “é rim de vaca”. O purê não era purê. Contudo, uma massa que descobrimos depois que era um prato famoso na região. Almoçamos com satisfação.

A comida mais estranha que experimentei, e que o sabor não agradou, foi o tal do ouriço do mar. Gosto forte, uma cor esquisita, textura áspera. Sinceramente, não dá nem para explicar. Horrível, de embrulhar o estômago. O restaurante era japonês, chique, em Balneário Camboriú. Pagamos caro pelo jantar. Em contrapartida, pela primeira e única vez, comi uma iguaria somente vista em programas de televisão. Parece moda nos realities de culinária. Da família dos moluscos, a vieira é considerada algo refinado. Nesse dia, senti-me no luxo a cada pequena mordida nas três vieiras servidas. Lembrança boa de um réveillon chuvoso.

Quando a cabeça já estava em outra dimensão, pensando na sobremesa, no sorvete, no Guarapan, chegou nosso almoço. Bife bem passado, salada de couve-flor, brócolis, tomate, cebola roxa, batata frita. Outra lembrança provocada pela confusão de idiomas. Na Alemanha, pommes é batata frita. Na França, pommes é maça. Pois é, já pedi um pensando no outro. Como a saliva já era um rio na minha boca, degustei o que veio. A fome precisava ser morta. Partimos para o almoço quente que nos esperava. Está servido?

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo

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