Fecho os olhos para me lembrar de um tempo atrás. Daquela época em que tocava a minha música no rádio, e também na fita cassete, quando o locutor anunciava um produto no meio da gravação da minha playlist. A voz de Joel Smith, de Lílian Cabral, de Ivaldo Ferreira, na Rádio Veredas FM. Dez canções no lado A, outras dez no B. O som 3 em 1: vinil, dial, fita – era luxo ter aquele que possuía a tecla REC.

Recordo-me do Bombril na antena, fita preta, fios de cobre, para melhorar o sinal da televisão, mas que era usada para “pegar” as ondas das emissoras de Belo Horizonte, dos hits que não chegavam em Bom Despacho. Em um chiado ensurdecedor se entendia que as “mais, mais” da semana tocavam nas boates Fênix e Atenas. Na minha imaginação infantil, eram milhões de quilômetros de distância para que um dia eu pudesse dançar nesses locais, sensações das propagandas da Jovem Pan.

Criança, acalmada pela babá eletrônica, a televisão que cuidava da minha diversão, dos desenhos animados da Hanna Barbera, Warner, Disney, Marvel. TVs Globo, Manchete, Alterosa (SBT), Band, sintonizadas em atrações fantásticas para o mundo infantil. Das séries japonesas nos tornando heróis com superpoderes contra os monstros mais terríveis vindos de outros planetas. Morria de medo do Buba e do Gyodai, vilões do Changeman e do Jaspion, respectivamente. Porém, assistir às lutas dos guerreiros do oriente me dava motivações para enfrentar os temores da vida: o escuro, as assombrações, o homem do saco e o Opala preto que roubava os filhos das mães.

Xuxa, Mara, Angélica, Sérgio Malandro. Os donos da bola, dos jogos, do parque todo. Ídolos de uma geração, dos meus amigos, da vizinhança, da criançada vidrada em He-Man, Super Amigos, Snoop, Comandos em Ação, Thundercats, Herculóides (nos anos 1980, as paroxítonas ainda tinham acento nos ditongos abertos).

Antes deles, na TV Alterosa, emissora mineira, afiliada do SBT, o reinado era de uma tia, pioneira na história da televisão brasileira, vestida de macacão colorido, faixa nos cabelos, brincadeiras de escola: dança da laranja, ovo na colher, corre cotia. “Alô, alô garotada. Alô, alô garotada. O Clubinho está no ar”, cantava a vinheta de abertura do programa da Tia Dulce, Rapadura e Pituchinha, seus assistentes. Tantas memórias passam em flashblack… Uma novela que vale a pena ver sempre.

Esperei algumas três décadas para dar um abraço nela, para ter a experiência que só os meninos da TV conseguiam, quando pediam colo. Eles ganhavam bicicleta, boneca, Atari, nos sorteios por meio das cartas ou nas competições do programa. E comiam pipocas Guri, aquelas de doce, gosto de recreio do ensino fundamental, do médio e da faculdade. Não tenho na mente a imagem da Tia Dulce na televisão. Contudo, quando falam dela, divirto-me sozinho, lembrando-me de sua visita a Bom Despacho, minha terra natal. Horas na fila para ter minutos exclusivos com ela no pula-pula. Brinquei muito depois de vê-la cantando em cima de um caminhão com carroceria de grade de madeira, parado na Praça da Matriz, coração da cidade.

Todas essas lembranças surgiram durante um encontro com a Tia Dulce, em uma gravação de um especial para homenageá-la, pela carreira, pela história, pela importância que ela teve na vida de tantas crianças que, hoje, nos anos 2019, certamente, já são pais, ou adultos com espírito daquele tempo. Recebi um abraço apertado, aconchegante, cheio de carinho e de afeto. Exemplo de mulher, de delicadeza nas palavras, sorriso solto, felicidade transbordando. De uma lucidez impressionante aos 83 anos de idade. Uma inspiração para continuar pulando, pulando pela imaginação, pelos projetos, pela missão de distribuir alegria.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo

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