Acordei logo cedo para dar os parabéns para minha mãe. Naquela quarta-feira, ela celebraria mais uma primavera. Conversamos animados, falamos besteiras, ela contou algumas piadas. Comentei da minha apreensão sobre os dias seguintes. Afinal, na sexta, seria minha banca de qualificação no mestrado. Estava nervoso, cansado, desanimado. No fundo, era estresse comum do fim de ano. Ela me alegrou com seu bom incentivo.

Quinta foi comum. Nada de extraordinário. Tudo tranquilo na redação da TV Alterosa, naquela ocasião. (Tenho que abrir esses parênteses para comentar que o problema é esse mesmo: essa tranquilidade incomoda os jornalistas. Nenhum crime de repercussão, nenhuma notícia de grande impacto). Até fui para casa antes do horário do término da jornada de trabalho. Naquela noite, eu faria uma palestra, mas antes precisava escrever mais no meu projeto. Até que um telefonema me colocou numa pilha de nervos… Numa pilha de emoções.

Saí da empresa, pontualmente, às 16h. Ao pisar em casa, dez minutos depois, o Chefe de Reportagem, Marcelo Santos, comunica-me, pedindo instrução para uma viagem dos repórteres até Mariana, por causa de uma suspeita de queda de uma barragem. Ponderei se a informação era verdadeira, se havia mortos, se havia motivos para viajarmos quase três horas por algo que ainda gerava dúvidas. Ele me convenceu com um número: “estão dizendo que mais de 200 pessoas morreram”.

Rapidamente, o cérebro recuperou memórias que me lembraram de outros acidentes assim: em 2001, a barragem de mineração de Rio Verde se rompeu em Macacos; em 2007, em Miraí, uma barragem da Mineradora Rio Pomba Cataguases provocou uma destruição horrível em Minas e no Rio de Janeiro; em 2014, uma barragem desativada matou operários em Itabirito. Nas três, eu estava na cobertura jornalística, de alguma maneira. As imagens me chocaram e me deixaram indignado. Aquele acidente no distrito de Mariana seria mais uma tragédia na nossa mineração. Foi pior. Mais dolorosa. Vergonhosa. Com danos incontáveis na natureza, na vida das famílias que perderam tudo.

Mergulhei no assunto. De casa mesmo. Escrevendo meu projeto, pensando em palestra, organizando a cobertura até a madrugada. Com vontade de gritar, de chorar, de socar a cara de alguém. Ao ver as imagens que chegavam pela internet, eu sofria. Muita lama, muitos gritos, crianças assustadas. Bombeiros empenhados. A cidade em choque. Aquela noite estava resumida em escuridão. E o tempo foi nos mostrando a crueldade humana, a ganância. Mostrou também a solidariedade, a luta pela sobrevivência. E ainda há fatos e casos ainda desconhecidos.

Contudo, infelizmente, parece que, dois anos depois, esse é ainda o sentimento daquele 5 de novembro. De algo que está obscuro, secreto, sem mudanças. Sem punições. Por isso, escrevo esse relato, para que sempre lembremos da tragédia que, todos nós brasileiros, devamos lutar e dizer: Somos Todos Mariana, Somos Todos Bento Rodrigues, Somos Todos Rio Doce, Somos Todos Litoral Capixaba, Somos Todos Abrolhos.

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