Era uma caminhada tranquila, na natureza, com as tonalidades amareladas do outono. Folhas caídas adubavam a terra, amaciando o passo do peregrino, perdido em pensamentos interiores, buscando respostas que não estavam em nenhuma lista de questionamentos. A mente estava livre, leve, quase vazia, absorvendo a energia das árvores que se preparavam, estrategicamente, para a chegada do frio. Ambos, caminhante e plantas, estavam em silêncio, momento de integração. As dúvidas eram da alma, do coração, das angústias do passado. Mistura de medo, de ousadia, de propósito.

Cenário de calmaria, porém, a cada curva, um suspiro com as surpresas da estrada. Haveria um animal feroz em tocaia? Um galho atravessado, atrapalhando o percurso? Uma assombração? O que poderia ser um obstáculo também era motivo de coragem para seguir em frente. O peregrino se abastecia de fé em oração, com foco, mesmo se resguardando dos perigos inesperados. Agarrava-se aos amuletos: crucifixo no pescoço, japamala circulando em um dos punhos e nos dedos, chaveiro com a imagem do santo de devoção guardado no bolso, olho grego no bracelete, objeto da moda, mas também da sorte.

Avistou uma casa. Um lago. Janelas e portas de madeira, pintadas de azul. Uma rede na varanda, barulho de um moinho. Passarinhos soltos. E os mais tristes, engaiolados. Flores de plástico em cima da mesa, com forrinho bordado. Samambaias despencavam do teto. Violetas sem brotos nem cores, vários vasinhos espalhados pelo jardim, pelo baixo muro que cismava separar o terreno daquela trilha sem fim. Seria uma miragem, uma ilusão do cérebro cansado? Observou atentamente.

O sol deixara um ar de mistério…

Na cadeira de balanço, crochê acelerado, cantarolando, dona Marilene sorriu convidativa. Ele não a conhecia. Contudo, o jeito dela era familiar. Sexagenária, cabelos finos, encaracolados, em tons de cinza, de branco, misturados com o rosto bonachão. Óculos de leitura pendurado na ponta do nariz, vestido florido. Acenou com a mão, indicando solidariedade. Ofereceu água, café, bolachas água e sal. O homem precisava de um encosto, um descanso. Minutos de conversa. Aceitou a gentileza e, no breve papo, soube quem era aquela senhora.

Pôr do sol, céu vermelho, dégradé laranja e amarelo. Dentro da casa, percebeu a emboscada. A vovozinha virou bruxa. Trancou as fechaduras e pôs trinco nas janelas. Ameaçou o rapaz afirmando que aquela caminhada era inútil, que ele não deveria pensar em futuro, cruzar pontes, seguir o coração em busca de novidades. Haveria pedras, percalços, desafios, dificuldades, fenômenos da natureza para atrapalhar. Até pessoas próximas iriam julgar suas escolhas. Ela estava enfurecida, indicando que o peregrino estacionasse por ali, naquele mundinho escuro e fechado.

Sereno, assertivo em suas decisões, deixou o tempo girar no horário da vida. Respirou profundamente. Olhos cerrados, não se envolveu com a angústia da mulher que gritava. Entendeu que aquilo era a periferia doente dela. Expirou, conectando-se ao seu próprio centro. Nova inspiração, deixou de lado as emoções negativas. Vislumbrava uma luz dourada cobrindo seu corpo, que era curativa. Afastava os medos. Pulmões inflados irradiavam sabedoria. Expirando o ar lentamente, voltou ao centro da certeza pela conquista futurística. Sorriu. Transmitiu beleza após a terceira respiração consciente. Tudo se esclareceu. Dona Marilene, desarmada, acalmou-se. Abriu o semblante, a porta principal, indicando os próximos passos: “é impossível impedir o destino daqueles que têm a consciência do agora, da certeza da individuação. Siga seu caminho sempre em frente, com amor”. E o peregrino se foi, em paz.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
www.blogdojuliano.com.br
E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo

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