A mensagem notificou o WhatsApp às 0h10. Era madrugada de “sexta-feira”, após uma semana exaustiva de trabalho. O corpo dormia profundamente abraçado com Morfeu, buscando descanso e paz da rotina.

Às 7h32, do sábado, o telefone toca. Número desconhecido para “acordar” aquele que seria o destinatário da ligação insistente. A primeira havia sido ignorada por motivo simples: estava ocupado no banho, tentando colocar o cérebro em ordem, ainda em sonolência. O grito irônico do lado de lá assustou depois do alô preocupado. Assim foi o diálogo:

– Oi, é a fulana. Te liguei agora, pois estava só esperando você acordar. E passarinho já está bebendo água há muito tempo. Quero saber o porquê de você não ter me respondido o zap que mandei ontem à noite, disse em tom desaforado.

Do outro lado, estupefato, o professor respondeu:

– Não vi sua mensagem. Estava dormindo à meia-noite. E não tenho de responder com a velocidade que você exige, ainda mais em um sábado, logo cedo. Calma lá. É preciso respeito na nossa relação de sala de aula.

E a conversa seguiu por outros rumos. Fim de papo. Contudo, de muita intensidade. Energia pesada.

Na era dos excessos, quando tudo parece ter solução instantânea, quando o sinal de check in fica azul na rede social de comunicação, temos de parar um pouco e pensar nas atitudes dos velozes e dos furiosos comportamentos desta época. Afinal, não dá para aplicar a receita de Miojo em todas as questões da vida. Há situações em que é preciso cautela, análise, estratégia. Reféns da tecnologia, devemos colocar em prática o básico do básico da ética, da moralidade, enquanto vamos nos acostumando com esses novos caminhos da convivência.

Cazuza já cantava: está tudo exagerado. A venda de ingressos para shows internacionais esgota em minutos. Os fãs dos garotos das boys bands, que viraram cantores solos, choram copiosamente nos portões dos estádios, quase se matando de fome à espera de um tchauzinho vindo do palco. As músicas dos torcedores do futebol se tornaram brados retumbantes – gritos para anunciar uma guerra entre as camisas. Uma série de 13 episódios é assistida compulsivamente na folga de domingo. Em prol de você estar entre os assuntos populares. O não dos pais para a compra de um desejo infantil, logo, logo, transforma-se em presente carinhoso, diante da persistência da criança. Se não der para ser agora, depois já se tem outro querer. Mais veloz, de preferência.

Em física, quanto maior a intensidade maior o fluxo de energia pelo espaço. Entre os homens, o conceito também vale. Quanto maior a intensidade das atitudes, mais impacto poderá ocorrer no outro.

Será que não estamos intensos demais? Exigentes em excesso? Desejando tudo para já? Vale a pena viver assim? Comida, bebida, farra, estudos, aparelhos tecnológicos, sexo, consumo, fotos no Instagram, visualizações no YouTube, contratos bilionários. Os meses parecem voar em um encontro dos cílios. A pressa. As imperfeições. A amplitude de tudo.

Será que estamos divagando demais? Pensando em trivialidades?

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
www.blogdojuliano.com.br
E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo

 

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