Diante da imponência, fiquei extasiado. Sonho de criança era visitar seus corredores, fotografar os vitrais vistos somente na aula de História da Arte, observar as gárgulas, ajoelhar diante da cruz, fazer três pedidos, agradecer por mais uma viagem. Sentir o cheiro do passado, das guerras, dos mistérios cristãos. Em renovação da fé, um turista encantado com a grandiosidade da arquitetura preservada há oito séculos, no fim de uma tarde do verão francês. A Catedral de Notre-Dame estava diante do meu deslumbramento, da expectativa infantil de conhecer um dos monumentos mais famosos do mundo, antes visto no cinema, em reportagens, na literatura. De fora, a construção gótica. Internamente, o coração suspirava emocionado.

Visitei Paris duas vezes. E, em diferentes momentos, vislumbrava a Catedral. Na primeira ocasião, em 2012, tive que optar entre duas possibilidades de passeio: ou subia nas torres ou entrava na igreja. Avisado que aquele dia seria a última visitação antes de uma reforma na parte externa, escolhi enfrentar a claustrofobia, a escadaria em espiral, uma chuva molha bobo, para ter uma vista panorâmica indescritível. Cada fôlego valeu a pena para colher os frutos da minha imaginação pretérita. Contudo, infelizmente, as portas para o altar, que tanto almejava, estavam fechadas quando encerrei a descida. Logo, uma frustração, mas prometendo que voltaria ali pouco tempo depois. Em 2014, passaporte carimbado novamente, outra angústia. Deixei para a última hora das férias a volta à Catedral. A gigante fila me impediu de percorrer os passos da coroação de Napoleão Bonaparte. Voltei ao Brasil com essa dívida.

Ao ver as chamas destruindo Notre-Dame, a violência do fogo derrubando a emblemática flecha, confesso que chorei. Presenciar o descaso com o patrimônio histórico, em qualquer parte do planeta, incomoda-me profundamente. É uma mistura de tristeza, revolta, desespero em não poder fazer nada naquele momento, a não ser enviar bons pensamentos aos bombeiros, aos moradores, aos voluntários que ajudavam a minimizar os danos. Reversíveis, de alguma maneira, para o início de outra história assim que for possível reconstruir o que sobrará.

Tenho lembranças marcantes dos momentos em que estive diante de Notre-Dame. Discreto, no chão, está o marco zero das estradas da França. E, por lá, um brasileiro, guia, ouviu meu sotaque mineiro fazendo uma foto. Ele apontou uma direção revelando onde estaria o Brasil, onde estava a minha saudade naquela data. Por lá, ainda, há uma concha de vieira, símbolo do peregrino e devoto de Santiago de Compostela. Fico atento a essa simbologia, por pensar no caminho que leva à Catedral que abriga o apóstolo São Tiago, ou seja, a jornada até a Espanha também pode passar pelo centro de Paris. Para mim, isso tem muita importância, pois o desejo de fazer o Caminho de Compostela é missão de vida.

De qualquer forma, é necessário pensar que a concha de vieira carrega outro significado pertinente à ocasião. Ela está relacionada à origem da vida e à fecundidade, ao conhecimento, à proteção. Assim, sentimos que Notre-Dame logo se reerguerá das cinzas, reconstruída, modernizada no que for preciso para receber cristãos, turistas. Para continuar sendo marco na história da humanidade. Com a certeza de que Notre-Dame passará por mais essa transmutação, para transmitir uma mensagem ao mundo. Quando tiver outra chance, retorno lá para fazer minhas orações.

Em outra época, escrevi sobre Notre-Dame, em texto, originalmente, publicado no livro Uniformes. Clique aqui para ler.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
www.blogdojuliano.com.br
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo

À espera da reconstrução do tempo…

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