Terça, dia de folga, casa. Quase madrugada. Na televisão, a introdução de um episódio da série Station19* mexeu comigo, mesmo a sonolência me tirando a atenção plena. A protagonista narrava no início da história: “O que faz o fogo?” E as imagens mostravam cenas do cotidiano dos outros personagens. Vieram os pensamentos, pois essa pergunta tem milhares de respostas e já sabemos a maioria delas. Da realidade à metáfora, do místico à virtualidade, o fogo é um mistério desde a antiguidade, mesmo sendo popular em todas as culturas. E fica o questionamento: como esse elemento básico da natureza mexe(u) com o ser humano, não é mesmo?

Fogo constrói, aquece, muda, transmuta, ilumina, ferve, gera. Ao mesmo tempo, ele destrói, queima, agride, escurece, fere, mata. Elemento imprevisível nos dois lados, para o bem ou para o mal. Pode ser uma chama discreta ou uma labareda avassaladora. Ritual de cozimento para alimentar ou ritual de crueldade para dizimar nas fogueiras. É sabedoria milenar. É recurso de poder. É sinônimo de espiritualidade. É sinal de calor. Simboliza renovação e renascimento, purificação. Significado para a vida, a intuição, a paixão. Para tantos sentimentos humanos, o fogo está lá. Inclusive para dizer da própria condição humana do ser, do estar – do existir.

Aos homens é dado o livre arbítrio, da caminhada, das mudanças, das escolhas. Podem agir com intensidade ou definir seguir o fluxo do destino. Assim como o fogo, que é baixo, apenas um foco, ou um incêndio, que é de grandes proporções. Agimos rotineiramente de acordo com a nossa chama interna, com fulgor ou com furor, trazendo felicidade ou tragédia. Podem trazer amor ou provocar a dor, aquecendo ou sufocando. Além da temperatura suportável, há atitudes que vão queimando silenciosamente, até o ápice da explosão. Vamos seguindo as decisões, no balançar das fagulhas, no andar das lavas vulcânicas, no acender e apagar dos fósforos, dos isqueiros. Temos o controle. Porém, de repente, tudo pode degringolar.

Na triangulação para o funcionamento do fogo, da combustão, a analogia também serve à nossa existência. Precisamos de combustível para fornecer a energia que queima; o comburente, que é a substância que reagirá com o combustível; e o calor, necessário para iniciar essa reação entre os dois primeiros elementos. Temos de ter ânimo, objetivo, sonho – combustíveis para o acordar; a substância comburente é o apoio, o toque, a palavra, o retorno – motivos para o caminhar, para oxigenar; o calor é a inspiração, a oportunidade, a realização, a novidade – é o que nos faz transcender.

A pergunta ainda provoca. “O que faz o fogo”, essa potente energia de cores multidimensionais que altera nossas incompletudes? Como está o seu fogo? Há combustível para o inesperado? Sua lista de comburentes são congruentes com as suas vontades mais secretas, aquelas que farão sua felicidade futura? E a sua caminhada está quente, fria, morna? Não importa a temperatura, pois cada chama funciona no tempo que lhe é destinado. No entanto, se estiver algo ruim, queime. Queime em nome do seu Criador. Pare, mire. Avançar, atirar: fogo!

Com luz e paz!

*Station19, exibida pelo canal Sony, no Brasil, e na lista da Netflix. Na obra, a história de um batalhão de bombeiros e suas aventuras cotidianas.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo

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