O fígado dói. Está com problemas no exercício do metabolismo dos nutrientes. Demonstra seus sentimentos nos exames que diagnosticam os dilemas do colesterol. Triglicérides lá em cima. Cansaço inexplicável, uma cor amarelada na pele, abdômen inchado, dolorido. Pratica esportes, alimenta-se bem, dorme razoavelmente durante seis horas noturnas, sonha pouco. Acha que entende de medicina por assistir, semanalmente, durante quinze temporadas, a série Grey’s Anatomy, com seus dramas, doenças raras, dicas de cirurgias. Da infância, lembra-se de outra série com o mesmo tema: Plantão Médico. Por isso, nega orientações dos consultórios reais. Contudo, desta vez, teve de ouvir a recomendação médica que indicou ajuda psicológica. Sentiu raiva do doutor. Afinal, não estava doido. Estava com dores.

Em casa, lavando vasilhas da divisão de tarefas entre os irmãos, fazia caras e bocas diante das dicas da mãe: “desligue a água enquanto ensaboa os pratos; encha o filtro; economize no detergente; use o lado verde da bucha quando lavar as panelas; coloque os copos com a boca para baixo, para que sequem melhor; separe os orgânicos do resto do lixo; varra o farelo de pão”. Com a mão esquerda livre gesticula próximo ao ouvido fazendo sinal que ela fala demais. Sorriso falso no rosto, mas, internamente, range os dentes, que sofrem na madrugada. Tem bruxismo.

Durante uma viagem, perdeu a paciência com os membros da família. Acordou antes do sol, caminhou para manter os exercícios físicos em dia, tomou café de hotel: frutas, iogurte, granola, mel, pães integrais, ovos mexidos. Tudo de acordo com o protocolo do ser saudável. Estavam em um tour pela cidade, visitando igrejas, feiras, sorveterias, museus. Escolheram um restaurante indicado pelo “guia” da rua. Um self service lotado, com fila quilométrica de espera, comida remexida, sem opções de saladas além do trivial casamento alface e tomate. Xingou pai, mãe, irmã, irmão, sobrinhos. De férias, em busca de sossego, exigiu almoçar em um local agradável, bonito, comida quente. Isso mesmo: exigiu. Emburrado, convenceu a turma de fazer a troca. Foram calados e o fígado pulsando sangue.

Estressa no trânsito. Irrita-se com as buzinas, com as barbeiragens. Com a lentidão do lado esquerdo, com os motoristas respondendo mensagens no celular. Avalia motoristas de aplicativos com três estrelas. “Se fossem duas estrelas e meia, seria a minha nota”, relata nas rodas de amigos. Não tolera motociclistas nem os minutos do semáforo. Gesticula palavrões aos pedestres que estão na faixa.

Contou tudo isso ao terapeuta. Lembrou-se de outras histórias, escondeu algumas em que sentiu vergonha. Ficou com medo do julgamento do olhar compreensivo dele. Admitiu que sente raiva, que é raivoso durante grande parte das 24 horas. Percebeu que a emoção é biológica e também social. Entendeu que a raiva é um sentimento que pode ser bom ou muito mau. Um instinto de sobrevivência, de autodefesa, de proteção para não demonstrar suas verdades. Esconde-se nas mágoas. Queria ser mais leve, tranquilo, “de boa na lagoa”, internamente, na sua centralidade. Infelizmente, o fígado armazena tudo. E dói! Precisa de ajuda, de colo, de diálogo. E experimentar algumas futilidades.

Observe a imagem abaixo. Reflita. Você está com raiva de algo? Conte-me nos comentários.

Lars_Nissen_Photoart from Pixabay

 

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
www.blogdojuliano.com.br
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo

 

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