Ah, setembro! Você chegou para nos cutucar com reflexões diversas. Talvez, por ser um mês diferente, que foi empurrado lá no passado para um lugar que não era o seu. Nasceu sete e virou nove, por causa de egocêntricos que queriam ter seus nomes eternizados no calendário romano. O ego era tão inflado que queriam ser comparados aos deuses já homenageados na folhinha. Será que os imperadores Julio César e César Augustus pensaram na sua dor, quando te trocaram na fila?

Mesmo preterido antes de Cristo, penso na sua sorte, quando o Hemisfério Sul foi colonizado, e do latim Septem, você foi rebatizado na língua portuguesa. Você foi privilegiado ao receber a alcunha do mês da primavera, para acolher a beleza dos jardins. O mês mais florido, também o mês na lista das noivas. E tantas outras denominações…

Na sua história, a importância da independência brasileira. Liberdade para a nação te enaltecer com desfiles, protestos, palavras de ordem, valorização dos símbolos cívicos. Um dia para a ordem, mesmo ao som das fanfarras. Lembrança de tempos de transformações, da colonização ao império; da escravidão às imigrações; da monarquia à república; da família real ao povo da realidade. E da democracia, mesmo ainda havendo censuras. (In) dependências! O slogan afirma por aí nas campanhas publicitárias: Brasil, um país de todos. E foi em você, em setembro, que esses “todos” foram incluídos na mesma nacionalidade, desfilando os cavalos, tanques, soldados, autoridades, estudantes, movimentos sociais. E até nisso há reflexões e ressalvas. Por que não? Quem nunca teve de enfrentar mudanças?

Até cor já ganhaste. É amarelo. De alerta, atenção, luz. Para prevenção do extremo, da dor insuportável, daquilo que não tem nome, da solidão, do desespero, da agonia. Porém, da clareza, do diálogo, da abertura, da troca. Da conscientização para as questões que levam ao suicídio. Antes, assunto obscuro. No entanto, agora, assunto discutido. Realidade triste tratada por alguns como vergonha, para se esquecer, mas que deve estar em debate para que muitos encontrem o túnel e vivam diferentes primaveras. Você foi o escolhido para acolher a importância do tema.

Li, certa vez, que você também é lilás, para o combate ao Alzheimer. E ainda foi destinado a ser o período para os dias sem carro, para as ações que buscam diminuir os acidentes de trânsito, para as lutas das pessoas com deficiências. Comemora-se em ti, a data da Amazônia, da Árvore. Em 2019, assuntos tão pertinentes, não é mesmo?

São trinta dias. No momento em que escrevo este texto, muitas memórias das exposições agropecuárias do feriado de 7 de setembro, dos shows, das descobertas da adolescência, das artimanhas dos amores secretos na minha terra natal, de ouvir o Kid Abelha pela primeira vez, ao vivo, em cores, a poucos metros de distância. Do grupo de jovens que me colocou no caminho da espiritualidade, da formação terapêutica, do encontro do outro, do meu semelhante – em suas individualidades.

Ah, setembro! Você mexe com as minhas emoções.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo

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