O fim de cada ano é uma época que mexe com as nossas emoções, as nossas posturas e os planejamentos para algo novo que virá. Confio e vibro nessa energia e fico observando os sinais ao longo dos dias, esperando as mensagens que o universo envia. Acolho-as, reflito, deixo seguir o baile naturalmente. Mesmo que Elis Regina tenha eternizado na canção que viver é melhor que sonhar, acredito que os dois estejam de mãos dadas. Afinal, ficar somente sonhando, realmente, não dá. Algo não se movimenta. E viver, ir vivendo, sem motivações, é como ser uma múmia presa no sarcófago. Só serve de enfeite em museu. Uma vida com sonhos merece ser cantada em diferentes melodias.

Hoje, 5 de dezembro de 2019, dia chuvoso, mormaço, céu cinza. No salão de beleza, a conversa entre clientes e barbeiros era sobre pessoas sistemáticas. Uns opinavam sobre as características, outros diziam que isso não existia, uns admitiram que se enquadravam no perfil, alguns mais enfáticos debateram que possuíam manias, mas que não estavam nas estatísticas de acordo com o tema. A seriedade do papo gerou risadas. As risadas ficaram sem graça quando uma senhora falou mais alto, contestando tudo. Ela foi direta: “se eu acho que algo é bom para mim, continuo fazendo. E vou seguir assim, pois somente eu sei da minha vida”. No silêncio dos dentes cerrados, olhares discretos, o ritmo das escovas, secadores e tesouras voltou ao trabalho. Na minha mente, a certeza que a mulher era muito sistemática.

Após a saída dela, voltamos ao debate. Os presentes concordaram que todo ser humano possui na individualidade algo metódico. Uma mania; um hábito; um sistema de enquadramento. Mesmo sinônimos, entendemos a opinião do grupo. Homens e mulheres são seres surpreendentes.

Fiquei pensando em quem eu sou. E como lido com os meus hábitos. A conclusão foi simples, pois sou sistemático em vários aspectos do cotidiano. Ensabôo todas as vasilhas antes de lavá-las; durmo do mesmo lado da cama; conserto o tapete do banheiro (na minha casa e na dos outros); deixo a pasta de dente com a abertura virada para baixo; não gosto de toalha molhada na cama; frequento somente os barbeiros que têm horário marcado; passo álcool na mão constantemente; mesmo alérgico, experimento um (eu disse UM) brigadeiro em festa de criança (e de adulto também); escolho os assentos do lado esquerdo em ônibus e avião; gosto de brócolis e couve-flor quentes, sempre; como jiló como se fosse maçã; tomo banho antes de dormir e logo depois de acordar. E tenho mania de listas, como essa anterior das minhas manias, de metas futuras, dos afazeres diários, de compras, de aniversários, de livros lidos e para ler, de séries televisivas etc.

Hoje, 5 de dezembro, fiz um resgate de músicas que ouvi, ao longo de 2019, pelo Spotify. Cinco entraram na lista das mais repetidas. Constatei que me apaixono pelo artista, pela letra, pela harmonia e ouço freneticamente até aparecer outra que agrada aos ouvidos. Serei um sistemático musical, também? Por isso, ainda continuo pensando nas mensagens que recebi nesse dia. Vou vivendo, sonhando, caminhando pela estrada afora. Certamente, múmia não sou. Gosto das experiências, das novidades, das aventuras. Gosto de arriscar mesmo que eu caia em furadas. Vale o aprendizado. Mania de quem gosta de existir neste sistema chamado universo.

 Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo

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