Já se sabe que Minas são muitas. Um Estado de particularidades incríveis e de histórias dramáticas e cômicas, narradas com um vocabulário peculiar, que é quase um idioma próprio. Terra de lendas, de importância política. Tema de prosas e de piadas, Minas Gerais é um lugar danado, sobretudo, por causa do jeito característico dos mineiros. Terra de gente teimosa, como relatam Rodrigo Nogueira e Aluísio Santiago. E também criativa como diriam esses sujeitos que escreveram casos curiosos desse povo no livro “Que Diabo é Esse Trem?”. Uma obra que explica o dicionário mineirês muito além do uai e do pão de queijo.

Nas páginas iniciais, aprende-se uma curiosidade: “dentre todos os Estados do Brasil, Minas Gerais é o único cujo gentílico segue o do país: brasileiros e mineiros. Daí para frente só vamos encontrar amazonenses, goianos, capixabas, gaúchos, potiguares, paulistas e por aí afora”. E essa é apenas uma das várias razões que fazem de Minas um lugar único em comparação ao resto da nação, principalmente, pelas invencionices de sua gente. Mineiro tem explicação para tudo com muito mais certezas e verdades do que se pode imaginar.

Igreja em homenagem ao Apóstolo São Bartolomeu (Distrito de Ouro Preto)

Em São Bartolomeu, distrito de Ouro Preto, cuja produção de alguns doces artesanais típicos da culinária mineira é reconhecida como pioneira em todo o país, por exemplo, os moradores contam que no povoado só nascem dois tipos de pessoas. Logo na infância, descobre-se o futuro da criança jogando-a na parede, “se grudar, será doceira. Se cair, será jogadora de baralho”, afirmam ao relatar as origens dos habitantes aos turistas. Obviamente, a atitude é uma brincadeira por aquelas bandas, mas fica claro que na tradição de lá, o DNA está inserido em diversas gerações, pois se trabalha e se vive das sobremesas e, nas horas vagas, o carteado é liberado. É truco? É blefe? Ou um mexe-mexe na imaginação? Só as águas do Rio das Velhas podem contar a veracidade dos fatos.

Nas beiradas da BR-262, outras lendas ficam escondidas entre as montanhas e nos leitos dos rios Capivari, Lambari e Picão. Em Bom Despacho, há duas versões para a origem do povoamento da região. Uma delas conta que a cidade foi formada a partir da chegada dos bandeirantes em busca de pedras preciosas. Porém, outra conversa revela que no município havia um quilombo antes da vinda da exploração mineral. Provavelmente, os bandeirantes queriam ouro, mas também deveriam capturar e recuperar os escravos fugidos. Cada um que conta, aumenta um ponto. Contudo, certo é: quem nasce em Bom Despacho fala um vocabulário próprio com palavras africanas que não constam no Aurélio nem no mineirês. Além disso, no gene do bondespachense está o seu destino: será professor ou soldado, ou filho de um ou o focinho do outro. Não tem jeito, a educação e a segurança vão estar em qualquer família.

Dona Sebastiana representa a cultura bondespachense

Os piadistas usam o mineirinho como personagem de anedotas que retratam os homens daqui como caipiras. Um tipo quase bobão, mas que também sabe levar vantagem na versão em que a piada é contada por aqueles que se divertem com o próprio estereótipo. Esta é boa: um paulista dirigindo pela Serra da Mantiqueira, queria tirar sarro da simplicidade de um mineiro, quando perguntou ao caipira, que fumava seu cigarro de palha sentado no acostamento, se aquela estrada iria para São Paulo. O mineiro sabichão entendeu que era uma gozação, já que naquela rodovia havia placas indicando o destino da estrada, logo respondeu: “óia, se ela vai pra lá, eu num sei não. Mas se fô, nóis vai chorar demais com sardade dela”.

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