Com respiração ofegante, cansado de subir as escadas do metrô, Manuel Luiz admirou o céu azulado de Paris. Procurou na memória o cenário que conheceu nos livros. Naquele dia, cinquenta anos de lembranças se tornaram reais. Admirou as torres, as imagens dos santos, os desenhos da porta principal, tudo em estilo gótico. Olhou para o chão, estava em cima do marco zero da Cidade Luz, de frente à Catedral de Notre-Dame. Vislumbrou a rosa dos ventos que está gravada no centro de um medalhão octogonal de bronze, cravado em pedras milenares. Leu o texto em francês, em letras maiúsculas: “POINT”, “ZÉRO”, “DES ROUTES” e “DE FRANCE”. Traduziu rapidamente: “ponto zero das estradas da França”. Emocionado, sorriu, procurou números para fazer as contas da quilometragem dali até Bom Despacho, sua terra. E, num instante, num piscar dos pensamentos, voltou ao Brasil numa viagem aos tempos da juventude. Recordara dos seus 18 anos, época em que começou a planejar a visita à França.

Acordou cedo, ansioso pela chegada de Firmino, o carteiro. No dia anterior, desde os primeiros raios de sol que davam um brilho amarelado à Igreja da Matriz, o filho do senhor Alexandrino e da dona Maria Leonídia tinha certeza que sua encomenda viajava na possante Maria Fumaça movida à lenha, carvão e água, pelos trilhos da Estrada de Ferro Paracatu. Combinou com um amigo de despachar o pacote no malote dos correios que saía de Belo Horizonte, da Estação de Santa Efigênia.

Esperar a Maria Fumaça para receber boas notícias…

Manuel conhecia todas as paradas do trem até a máquina chegar à Estação Ferroviária da Praça Olegário Maciel. Contou os minutos para que a sua compra fosse entregue em segurança, mas antes a locomotiva número 325, fabricada pela “Baldwin Locomotive Works”, importada dos Estados Unidos em 1918, transportaria outras cargas e passageiros passando por Contagem, Betim, Saraiva, Vinhático, Juatuba, Mateus Leme, Azurita, Pará de Minas, Pitangui, Velho da Taipa, Leandro Ferreira, parando também nas estações Trigueiro, Álvaro da Silveira e Daniel de Carvalho. E a viagem demorava muito.

Chamaram na porta, com barulho de palmas: “Ô de casa!” A meninada saiu correndo esbaforida para ver do que se tratava. O carteiro segurava um embrulho de papel amarronzado. O nome do destinatário estava escrito em caligrafia caprichada. Era o livro que Manuel tanto ansiava: O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo. A primeira obra literária que ele se deu ao luxo de poder comprar com o próprio salário. O coração se encheu de felicidade.

A noite já escurecia as casas da Praça do Rosário, onde Manuel morava com a família. Luzes piscavam, porém a energia elétrica não funcionava em alguns lugares e o povo gritava brincando: “dá a luz Zé Anacleto”. Era assim constantemente. Contudo, o responsável pela Companhia Força e Luz até se divertia. Não se importava de sair de seu castelinho para dar um jeito na falta de eletricidade na cidade. Mas Manuel não queria ser surpreendido naquela ocasião, pois sua meta de leitura entraria pela madrugada. Para ler, esperou os irmãos ficarem quietos. Após o jantar, a mãe ajudou, obrigando João Luiz, José Luiz, Rafael, Luzia e Fia a dormirem mais cedo. Em silêncio com muito esforço, teve de ler o clássico francês de pé, para que o texto ficasse próximo à luz. A lâmpada, de filete avermelhado e por isso conhecida popularmente como “tomatinho”, iluminava a sala com fraqueza. Só lia nessas condições, após o trabalho, e mesmo assim terminou o romance em poucas vezes.

Acordado do transe e das recordações do passado abriu os olhos, iluminados pelos famosos vitrais da catedral. Sentado, observando turistas e religiosos, silencioso, Manuel transportou-se à Paris de 1482, na Île de la Cité, no meio do rio Sena. Sentiu a energia da história do homem coxo e deformado, adotado por Dom Claudio Frollo. Relembrou os diálogos de Quasímodo e das situações que ele enfrentou por causa do amor não correspondido por uma cigana, a bela Esmeralda. Agradeceu à mãe de Deus pela fantástica viagem!

* Crônica escrita em 30 de novembro de 2015. Publicada no livro Uniformes.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
www.blogdojuliano.com.br
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo

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