“A vida é feita de ciclos”, disse Laís filosofando no corredor da empresa onde estagia. Questionava-se em relação à trajetória profissional após a formatura que viria em breve. Não queria parar de estudar, mas desejava um descanso, férias escolares de verdade, após uma caminhada ininterrupta de 19 anos, do maternal à faculdade. Ansiava uma pós-graduação, um mestrado, outro curso superior, vários cursos on-line. Porém, precisava de uma pausa para respirar novidades. Era medo da passagem, da conclusão de mais essa etapa. Até este momento, para alcançar a maturidade com mais um diploma na parede, de alguma maneira, foram cinco cerimônias ritualísticas: maternal, pré-primário, quarta série (em alguns currículos, a quinta), ensino fundamental e médio; e a graduação, pela qual suspira a chegada, a sexta e mais tensa, tamanha a responsabilidade que busca: um emprego.

Interessante observar como somos programados a viver em constantes ciclos: rotação e translação solar; fases da lua; estações climáticas; infância, adolescência, juventude, fase adulta e a maturidade; os cabelos, os brancos, a calvície; a puberdade e suas diferentes vozes; a menstruação e suas regras; treinar a escrita com lápis número 2, o caderno de caligrafia, fazer prova com caneta, digitar apenas com o polegar no smartphone; livros com gravuras, letras grandes, romances melados, trilogias com mil páginas em cada obra. E tudo se resume, metaforicamente, ao mesmo ciclo do nascer ao pôr-do-sol, do nascer ao morrer. A vida é um arrastar, engatinhar, andar e correr outras distâncias, para alcançar um objetivo.

Assim vamos percorrendo nossas questões nas horas, nos dias, nas semanas, nos meses, nos bimestres, nos semestres, nos anos… Comemorando bodas de todos os tipos, com diferentes símbolos. A cada aniversário se inicia uma etapa, mais uma vela para ter fôlego. Na velocidade desses tempos, tem gente que já celebra o tal de “mesversário”, uma festa para cada mês de vida do bebê até que ele complete um ano de idade. E tem gente que para de contar os anos, depois de alcançar os “enta”. Nesse período, da idade da loba, dos quarentões, dizem que o ciclo é outro. A melhor idade ou a descida da ladeira.

Na Bíblia, nascer, crescer, multiplicar. Na linha de pensamento da Antroposofia, criada pela filósofo Rudolf Steiner, encontra-se uma forma cíclica de ver a vida, conhecida como “Teoria dos Setênios”, que divide a história humana em fases de sete anos. De 0 a 7, a individuação, a construção do corpo: a infância. De 7 a 14, o despertar do sentimento próprio. Dos 14 aos 21, a crise de identidade. Dos 21 aos 28 anos, o “Eu” – a independência e a crise do talento – o que serei? Para onde irei? Já dos 28 aos 35, tem a crise existencial e a fase organizacional. E a crise de autenticidade, ruminando os resultados da fase anterior, ocorre dos 35 aos 42. Em seguida, dos 42 aos 49 anos, altruísmo versus querer manter a fase expansiva. É o ciclo do recomeço, da ressurreição, do alívio. Já dos 49 aos 56, busca-se o desenvolvimento do espírito. A partir dos 56 até 63, e adiante, uma mudança brusca. É como a pessoa se relaciona consigo e com o mundo.

Por isso, peço calma, Laís. Calma também para você que leu até aqui.

Encontrou-se em algum ciclo? Refletiu? Passou de fase com consciência? Para cada etapa, há um momento certo. Já está tudo escrito. Basta preenchermos esses intervalos com as nossas escolhas, percorrendo atalhos, traçando outras rotas. Com amor, luz e paz. Viva o tempo de acordo com o próprio tempo. Afinal, ele é cíclico.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo

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