No estúdio de pilates, onde treino duas vezes por semana, sou recebido por um carinho curioso, logo quando toco a campainha do local. Rita, a educadora física, me recebe na porta e com o pé tenta impedir a saída do seu cachorro, companhia fiel de todos os dias de trabalho. Antes, o bicho era arredio, ficava escondido em um quartinho, não latia nem levantava as orelhas. Transformou-se com o tempo. Mudou de comportamento e age diferentemente de outros da sua espécie.

Certa vez, conheci sua triste história. Perambulava pelas estradas de terra da zona rural de Santa Luzia. Magro, vira-lata, comia o que encontrava no lixo, das sobras dos sítios frequentados nos fins de semana, lutava com unhas e dentadas pela sobrevivência com animais maiores. Estranha-se o motivo de ainda estar vivo. Perdia quase sempre, saía machucado de todas as batalhas, sem pedaços grandes do corpo. Ficou cego, agressivo, amedrontado. Espreitava alguns moradores pedindo colo, mas tinha medo, sobretudo, dos homens. Dizem que levava fortes chutes da rapaziada do mal.

Foi acolhido pela pena e pelo amor de Rita, que o batizou de Lôrinho. Ele tem pelo amarelado com misturas de pintas amarronzadas. Ela deu banho, vacina, aconchego, casa. Agora tem teto, ração e motorista. Anda de carro com pinta de lorde. Senta-se bem no centro do banco de trás sobre as patas traseiras. Olha sempre para frente e não coloca o focinho na janela para buscar o frescor do vento. Parece uma estátua. Imóvel, não late, não interage com a rua, não coloca a língua no vidro. Tem uma qualidade: faz as necessidades fisiológicas somente debaixo das árvores. Ainda não marcou território nem em sua nova casa muito menos no estúdio de pilates. Parece que quer ser do mundo. Contudo, acostumou-se a respeitar o espaço daquela que o acolheu.

Dizem que não morro de amores por cachorros, mas sou um incompreendido. Gosto, porém, não quero tê-los, pois acredito que a responsabilidade de cuidar de um bicho de estimação não combine com a minha atual liberdade de ir e vir. Fico com dó de não estar presente para dar atenção, carinho, tosa. Para redimir minha imagem, explico a minha relação com eles. Já tive a Diana, uma collie, quando eu era criança, que morreu nos meus abraços. Depois, a Cissa, uma poodle danadinha, que só veio a óbito porque foi atropelada, mesmo com seus 15 anos de idade. E vários gatos. Periquito, peixe, canário, tartaruga, pombo, codorna, até galinha de raça já criei. Com o tempo, decidi não ter bichos…

Lôrinho tem me cativado com seu sentimento, já que não abana o rabo para ninguém. E só sai do quartinho quando ouve a minha voz. A dona até estranha quando eu chego e ele vem pular nas minhas pernas. Arranha-me com as longas unhas, parece abrir um sorriso quando brinco com suas orelhas. Quer meu afago, que eu lhe coce as costas, faça um chamego na barriga. Enquanto não dou atenção, ele não desiste. Vigia-me fazendo os exercícios, olha atentamente cada movimento. Descansa na esteira. Despede-se na porta quando termina meu horário. Recebe meu abraço e um até logo. Sorri também na despedida. Saio da aula emocionado com tanta educação daquele cachorro. Nesses tempos de ódio é muito bom ser amado. Até pelos animais.

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