Dois homens, carregando na idade a experiência, conversavam animados antes do voo partir rumo a São Paulo. Parecia um encontro de velhos amigos em viagem de férias. Relembravam, falavam de amenidades, riam de besteiras, comentavam sobre os anúncios de relógios e de bebidas da revista de bordo. Pareciam ogros. Dos que ostentam o número de conquistas na cama, que exibem objetos para demonstrar poder, que ficam se gabando de charuto, de whisky importado, da mecânica de carros. O papo era chato, mas impossível de não ser ouvido, mesmo o anjinho da minha educação dizendo que deveria me concentrar nas páginas do livro que carreguei como companhia. Ouvi o diálogo porque estávamos na mesma fileira do avião e eles falavam alto e com os gestos longos.

Já nas nuvens, o assunto foi a vida amorosa de um conhecido deles. Colega de empresa. Casado, com filho, infeliz. E corno. Coitado. Classificaram a mulher de vagabunda, de safada, de palavras e de nomes impróprios para serem escritos. De aproveitadora, oportunista, interesseira. Julgaram o divórcio do casal como culpa dela, que fez escolhas indignas para alguém que fosse de respeito. Ele não a merecia nem na época do namoro, quando foi avisado da índole da sujeita. Como não deixar os ouvidos abertos com uma história assim? Curioso, queria saber o desfecho. Ele caiu na balada? Ela fugiu com o amante? Teve briga por bens? E o filho, entrou na partilha amigável? Ou passou a viver com os avós?

De repente, sem happy end nem posfácio, a conversa dos cinquentões se transformou em um debate político. A angústia de não saber os pormenores do caso do marido traído mexeu com a minha imaginação. Pensei em mil situações e torci para que a minha constatação sobre o perfil dos meus companheiros de voo fosse verdadeira. Para mim, eram toscos e ogros. Queria que eles falassem de suas fugidinhas do casamento. De suas amantes. Dos chifres que enfeitavam as cabeleiras das esposas. A mulher que traiu era uma vadia. Eles estavam livres para o poliamor, pois o homem é assim. Pedi perdão a Deus pelo pecado que cometia. Estava julgando também. Fui preconceituoso. Talvez aqueles caras eram diferentes.

A bateria do Ipod acabou. Fiquei sem música para ninar os poucos minutos que teria para dormir até o pouso na terra da garoa. Silencioso, sem opinar, sem demonstrar reações, voltei a participar do bate-papo. Sentado na ponta, o fulano disse que o país estava o caos. Em 2018, votaria no Bolsonaro. Afinal, só um louco para resolver os dilemas do Brasil. Como estava sem opção para o cargo, o deputado seria a alternativa. Do meu lado, o ciclano rebate as justificativas do outro, argumentando que haveria diferentes candidatos à presidência. Xingou o amigo com firmeza expondo suas convicções. Relevou algo que jamais pensaria em ouvir de um sujeito que eu classifiquei como machista. Bolsonaro não teria seu voto porque era homofóbico, misógino, racista e machista.

De supetão, assustado, culpando-me por estereotipar um homem que nunca havia visto na vida, quase abracei o camarada. Queria agradecê-lo por defender com veemência tantas pessoas que sofrem preconceitos. E, claro, por ele ter me mostrado meus próprios preconceitos. Acreditei que não entenderia o motivo do meu aperto de mão. Rezei por ele, por mim. Pelas vítimas.

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