Dormi pouco. Noite intensa, de um frio entrando pelas frestas da janela, pés debaixo da coberta buscando calor. Não adiantou nada um fazendo carinho no outro e a dúvida de usar meias foi igual à preguiça de levantar na madrugada rumo ao guarda-roupas. Até a luz de stand-by do computador incomodou, algo já de costume para quem fez o quarto de escritório nestes tempos de distanciamento social. O relógio do celular me contou que eram 2h02. Rezei um Pai Nosso e uma Ave Maria, costume quando vejo números semelhantes. E nada de sono profundo. Fiquei dormindo, acordando, dormindo, acordando.

Nos momentos em que cochilei, tive um sonho estranho. Era uma festa com muitos convidados, mas havia um programa de televisão no meio das bebidas, das músicas, dos petiscos. Sofás arrumados em U, com debatedores falando de vários assuntos. De guerra, de política, de cultura. Uma saia justa, uma roda viva, um debate eleitoral. Tudo se misturava na minha cabeça de observador não participante. O funk de trilha sonora, com bailarinas empolgadas em cima do balcão do bar, homens vestidos com trajes sertanejos brindando caipirinhas. Gretchen e Pablo Vittar conversando, chamando para dançar, ao mesmo tempo em que debatiam os assuntos polêmicos. Quem estava na festa também entrava na conversa. Era um senta e levanta – nos sofás e nos quadris.

Costumeiramente, acordo às 6 horas. A escuridão do quarto e a noite mal-dormida não mudaram a rotina. Despertei assustado e, ao mesmo tempo, dando gargalhadas do sonho maluco. O que as cantoras estavam querendo me dizer? Que cenário era aquele? Quem seriam os outros personagens presentes naquela combinação de ritmos, de assuntos? O relógio marcava 6h07. Meu ouvido zumbia alto. Aquela algazarra de boate. Sonolento, com frio, fechei os olhos para acalmar os tímpanos. O zumbido só aumentava.Um barulho ensurdecedor veio de fora da minha casa. Supus que seria uma moto subindo a Rua da Olaria, que é um morro.

De repente, passou uma moto, que buzinou, e aquele barulho de pás de helicóptero ficou mais próximo da janela do meu quarto. Assustado, puxei a cortina e não vi nada. O céu azul, com poucos raios solares, anunciou as cores do dia, da sexta-feira, 22 de maio de 2020. Sem óculos, com visão embaçada, fiquei com medo. O som subia e descia. Longe e perto. Uma onomatopeia assim: Papapapapapapapapapapapa. Papapapapapapapapapapapa. Papapapapapapapapapapapa.

Fiquei pensando se seria alguém com cortador de grama arrumando o quintal. A geladeira queimando, a televisão da minha mãe passando algum filme. Ou algo mais estranho, já que a minha noite combinava com fatos bizarros. Aquele barulho seria de uma nave espacial observando os moradores de Bom Despacho? Afinal, na internet circulam mensagens que os extraterrestres estão nos vigiando, que as imagens de seres de outros mundos estão sendo liberadas pela NASA, que haverá setes dias de escuridão, que o apocalipse começou. E o barulho ia e vinha cada vez mais próximo.

Fechei a cortina. Os olhos. Cobri a cabeça. Dormi novamente. O toque na porta me despertou: “hora de tomar café meu filho. Já são quase dez horas”. Será que eu sonhei tudo aquilo? “Mãe, a senhora escutou algum barulho de manhã. Algo semelhante a um helicóptero?” Ela colocou as mãos nos ouvidos reclamando. “Ouvi e estou até surda e enjoada. Acho que é o caminhão de fumacê contra a dengue que passa aqui na rua de vez em quando”. Silêncio! E risadas.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
www.blogdojuliano.com.br
E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo

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