Na floresta, a lagarta caminha solitária buscando reconhecer seu propósito de vida. Com seus minúsculos pés vai chutando a areia seca querendo respostas de perguntas que ela mesma não conseguia fazer. Nasceu gosmenta, considerada feia pela fauna ao redor, não entendia o motivo dos preconceitos que ouvia. Até entre as iguais de sua espécie o assunto era enfadonho. Alimentavam-se e dormiam. Ficavam quietas comendo folhas, esperando o destino agir, mas ela sabia, internamente, que aquela vidinha sem graça, aquele sofrimento, tinha um designo maior. A lagarta, mexida nos pensamentos, ansiava por mais. A única palavra que surgia em sua mente divagante durante a caminhada, insistindo em provocá-la, era “transformação”. Até arrepiou.

Durante um happy hour entre os insetos, ouvia a falação das amigas fazendo planos para o futuro. “Amanhã vamos atacar as folhas mais novinhas daquela árvore”, diziam. “Queremos comer até explodir”. Outras queriam experimentar a flor amarela que se destacava na imensidão verde de onde viviam. “Temos de bolar um plano para não sermos atacadas pelos pássaros, aqueles predadores sanguinários”, reclamavam as medrosas que não se arriscavam em outras plantas.

As mais combativas fofocavam desdenhando do grupinho de borboletas que se reuniam no entardecer por aquelas bandas. “Essas fulanas só usam o mesmo vestido. Será que elas não conhecem o efeito camuflagem, que nos foi dado como proteção?”. “Nossa maquiagem é perfeita, não é mesmo?”, riam as mais coloridas e metidas. A lagarta era contra aquela briga, pois sabia que pertenciam à mesma família. Queria aprender algo com as primas, mas era impedida de se misturar para não causar constrangimentos familiares.

Cansada da rotina come, dorme, engorda e foge dos ataques aéreos, resolveu dançar. Embalando as patas, o corpo, reconheceu algo diferente, que podia ser mais flexível. Batia palmas, dava gargalhadas, cantava, sentia um pulsar pela vida. A palavra transformação sendo sussurrada nos ouvidos por sua intuição. Era um chamado. Um toque do além, dos anjos protetores daqueles que se descobrem prontos para a metamorfose. Era isso. Eureca! Chegou a hora de desvendar os seus questionamentos pessoais. A lagarta gritou com toda força: “eu vou voar”.

O baile todo riu. Desdenharam dos desejos dela. Chamaram-na de louca. “Desce daí sua maluca. Está achando que você é a Alice? Volta para a terra, sai do mundo das maravilhas”. “Lagarta querendo ter asas? Quem anda com morcego, um dia morre de cabeça para baixo”. Mesmo com os ataques, ela não desistiria do sonho. Sorria com as frases feitas e do sarcasmo da sociedade. Tinha motivação, certeza e respeito pelas opiniões contrárias, pois intuía que a hora certa chegaria para todos. Não poderiam fugir do destino maior.

As borboletas não riram da lagarta. Bateram palmas, muitas palmas. Vibraram e incentivaram. Contaram de suas peripécias pelos céus. Contaram o que é migração. Ensinaram como se batem as asas.  “Estamos contigo. Acreditamos em você”. E seguiu o som do fluir da vida.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal.
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo

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