Recentemente, perdi um amigo querido. Incentivador da cultura, fundador de bibliotecas e de escolas, promotor do progresso, cuidador da história e do patrimônio. Um mestre das letras, da boa prosa, cronista de todos os tempos, de lugares que marcaram suas lembranças. Generoso, sempre dividiu o que aprendia, inclusive seus sonhos de criança, de historiador, de jornalista. Era um intelectual que amava viajar por diferentes distâncias, mas sempre fazia o caminho de volta a Bom Despacho, Moema, Lagoa da Prata. Pés em Brasília, coração no interior de Minas.

Autor de diversas obras, para mim, é uma lenda, mesmo quando ainda estava peregrinando por aqui, no plano terrestre. Sem saber, ele me mostrou, por meio de seus livros, a paixão por minhas raízes que, também, são as dele. Ensinou-me a curiosidade pelas miudezas, pelas origens das pessoas, das conexões dos povos, pelo passado em prol da eternidade. Em seus escritos, conheci personagens históricos. Visitei lugares por meio de suas descrições de viagens por estradas afora. Apaixonei-me por Portugal, sobretudo, por Minho, província irmã da Cidade Sorriso, mesmo sem ter atravessado o caminho contrário de Pedro Álvares Cabral.

Recordo-me de uma citação lida em um dos seus artigos, que é atribuída ao escritor russo Tolstoi. Parte de um comentário em relação à preservação da memória de nossa terra, a frase me deu uma lição à época em que eu nem pensava sobre minha procedência genealógica. Aprendi que é preciso ressaltar sempre o nome da minha cidade por onde quer que eu vá.  Ao citar a notável passagem de Tolstoi, que diz “pintando bem a sua aldeia você será universal”, meu amigo me incentivou a colocar em prática o que John Lennon também expressava: “pense globalmente e atue localmente”.

Ele se foi, mas ganhei um protetor celeste. Professor Jacinto Guerra, na verdade, já me protegia, de alguma maneira, em vida, quando compartilhava meus textos em suas redes sociais, fazendo comentários motivadores, compartilhando com seus seguidores os meus pensamentos. Isso me deixava muito envaidecido, pois sentia que nossa curta relação era de admiração mútua. Infelizmente, nossos encontros presenciais foram raros. Felizmente, a internet proporcionou bons diálogos. Ele partiu deixando um legado de conhecimento para todas as gerações de Bom Despacho, de mineiros, de brasileiros e de portugueses, sobretudo, para mim, que o tenho como referência.

Escritor de uma leitura agradável e profunda, Jacinto Guerra desenhou em palavras a história da nossa terra natal, dos tempos memoráveis daquela aldeia que já foi um pequeno distrito de Pitangui à grandeza da cidade referência do Centro-oeste de Minas, conhecida no Brasil, quiçá no mundo. Afinal, nossos avós sempre repetem: “se você vai em algum lugar e não tem ninguém de Bom Despacho, por lá, certamente, tem você”. Solo onde Mariquinha fez biscoitos, de onde jorra a guerreira água da Biquinha. Refúgio de alemães, onde Dona Sebastiana preserva a cultura negra e o adorável dialeto da Tabatinga. Chão irrigado pelo São Francisco, terra de gente iluminada pelos ensinamentos abençoados do padre Jayme Lopes.

Perdemos um grande homem. Foi-se o corpo. Entretanto, sua alma está registrada na imortalidade da academia das letras, dos versos, das palavras que ainda não foram publicadas. De seu exemplo como cidadão ilustre.

“O Homem é um ser telúrico, voltado com o espírito e o coração para a sua terra de origem e a pátria dos seus pais e antepassados”.  Jacinto Guerra

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta.
Chefe de Redação da TV Alterosa
Blog: www.blogdojuliano.com.br
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo

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