Muitas vezes, as roupas definem quem somos, como nos apresentamos ao mundo e como ele nos vê, ou julga. São a segunda pele, a proteção, algo simbólico para marcar presença, a vestimenta social, o traje cultural, o significado da profissão exercida. São também esconderijos, máscaras, segredos. Certamente, dão visibilidade. Notoriedade. Ao mesmo tempo, ficam invisíveis. Não servem para nada diante da impotência humana. O que seríamos sem os tecidos que nos cobrem o corpo?

A tragédia iniciada em Brumadinho, que terá consequências no planeta, está mexendo com os sentimentos. Observando o trabalho de resgate, da imprensa, das autoridades, dos voluntários, dos órgãos de segurança, dos analistas técnicos, dos profissionais da saúde, de todos que estão se mobilizando para minimizar todas as angústias, fiquei pensando nas fardas e “fardas” que vestimos. Sobretudo, naquelas que estão, exaustivamente, empenhadas no salvamento de vidas. Pensei até nos bandidos, nos corruptos, nos desonestos envolvidos nesse crime. São muitos uniformes experimentando a mesma dor, a mesma lama devastadora.

Dói ouvir são “tantos corpos encontrados”. E o que eles foram para alguém: filho (a), mulher, marido, amigo (a), ombro…? Queria mudar o discurso da mídia para: “mais uma saudade que fica foi encontrada pelos bombeiros”.

Rejeitos mataram. Contudo, em algum momento, eles contribuíram para a existência de muitos. É uma controvérsia complexa de se ter um lado, mas nada substitui a perda de famílias inteiras, da inexistência delas em pouquíssimos instantes entre o rompimento da barragem e o deslizamento da lama morro abaixo. Que roupa vamos vestir para aguentar a destruição dessa catástrofe? Haverá lados? Admirável é a entrega humanitária de quem atua nos resgates. Nem precisam de suas fardas e condecorações para demonstrar solidariedade. Por fora, vestem barro. Na atitude, carregam a nobreza. A bondade.

A reflexão moral para esse momento veio de uma análise feita por uma criança de apenas cinco anos. Hugo, filho dos meus amigos Rodrigo e Cris, fala cada pérola, que a mensagem merece circular nos grupos de Whatsapp. O pai dele fez o relato:

“Depois de ouvir a história da pomba e da formiguinha, Hugo me disse:

– Então é verdade, né! A gente tem de se arrepender das coisas más. Às vezes, também de quando fazemos coisas boas, mas elas dão errado.

– Às vezes, as coisas dão errado filho, mas não devemos nos arrepender de fazer o bem.

– É. É um bumerangue, né, papai?

– O que Hugo?

– A bondade é um bumerangue invisível, que a gente manda, mas sempre dá um jeito de voltar.”

Sábia lição, não é mesmo? Foi baseada na fábula de Esopo, que conta sobre o encontro de uma formiga que está se afogando no rio e uma pomba a ajuda, jogando uma folha nas águas para que o inseto se salvasse. Pouco depois, um caçador de pássaros se preparara para matar a pomba que estava no alto de uma árvore. A formiga, percebendo o perigo, deu uma ferroada no pé do homem. Ele, ferido, deixou cair sua armadilha, fazendo barulho. A pomba voou, voou a salvo.

Que a bondade vá e volte sempre por onde ela caminha, pois “quem é grato de coração sempre encontrará oportunidades para mostrar sua gratidão”. Que a tragédia seja sempre lembrada, indiferentemente, de nossas roupas do cotidiano.

Paz e Luz.

Que a bondade caminhe pelo mundo

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