Pediu-me um conselho: “preciso de uma desculpa para não ir ao ‘rolê’ com os meus amigos. O que falo com eles? Me dê uma ajuda”.

Assim começou o diálogo com um amigo mais jovem, em busca de uma solução para seu dilema de feriado. Normalmente, sou direto nas respostas, mas respirei antes de pensar em um caminho a sugeri-lo. Afinal, o pedido me surpreendeu. Quem sou eu para inventar pretextos? Logo eu, visto como uma pessoa ligada ao “sincericídio”? Minha declaração não seria diferente do que eu mesmo faria: “diga que não quer sair, que trabalha amanhã cedo, que está cansado e que mudou de ideia. Ponto”.

Ele discordou da dica, dizendo que os amigos não aceitariam, que não ia “colar”, que insistiriam em levá-lo para a farra de qualquer maneira. Assim, resolveu mentir, dar uma desculpa como “vou passear em uma cidade vizinha e não dará tempo de voltar para encontrá-los”. Como respeito as decisões de cada qual, segui a conversa para outros rumos, porém, antes disso, escrevi: “acredito que algumas conversas se resolvem tranquilamente quando você é franco e sincero”. Por fim, ele encerrou o assunto, provavelmente, dando de ombros onde estava: “ah, mais fácil assim”.

Claro que minto. Não negarei. Mentira é algo inato ao ser humano. Criamos, inventamos, desvirtuamos, omitimos, desfazemos, mudamos de perspectiva, aumentamos ou diminuímos os fatos para amenizar as histórias. Da mesma maneira em que somos verdadeiros, honestos, honrados, éticos e munidos de moral e de valores. Tudo depende da perspectiva. Contudo, em determinados “rolês”, como ele mesmo usa de vocabulário, ainda sinto que é normal ser leal. Uma vírgula correta é sinal de uma narrativa de bons capítulos.

Outro episódio, com os mesmos reflexos, aconteceu comigo recentemente. Um amigo veio do Rio de Janeiro e marcou um encontro da turma. Convidou, avisou, enviou mensagem reservando dia e horário. Confirmei presença para o abraço, para matar a saudade. Evento anotado, supostamente na memória, na agenda. Na data prevista, esqueci de tudo. Fui para outros cantos, não processei a informação anterior, empolguei-me em outra festa. Apaguei da cabeça o compromisso que eu havia feito. Dias depois, ele me perguntou o porquê da ausência. Fiquei envergonhado, sofri, lamentei meu deslize. Pedi perdão pelo esquecimento, contando que, realmente, não me lembrei. Não é fácil admitir o erro e me sinto culpado. No entanto… Parece que ele entendeu minha verdade.

Poderia ter arrumado uma doença, um velório, uma viagem. Preferi o caminho mais suave: afirmei francamente que a cabeça tem andado ao lado das nuvens. Com os cabelos brancos chegando, vamos alterando as decisões do comportamento social. Tenho vivido com menos preocupações, menos desculpas. Seguindo o fluxo da leveza, para ter menos pesos para carregar no lombo. Alguns dilemas já bastam para dar torcicolo, não é mesmo?

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo

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