Agosto trouxe lembranças: infantis, dos tempos das brincadeiras de pé no chão; adultas, quando se aprende a gostar e a respeitar as raízes. Podem ser as familiares ou as patrióticas. Os ventos frios do mês, que apareceram quentes de repente, resgataram as memórias das pipas no céu. Vareta de bambu, rabiolas, papel de seda, grude feito de polvilho. Meninada gritando nas ruas quando alguém perdia a manobra das linhas. Areia de construção, estilingue, arapuca. Correria para encontrar as melhores frutas roubadas. Pega-pega com nomes variados. Assim como o clima, há muitas variáveis estranhas neste momento.

Na escola, medo da mulher do algodão que atacava quem se arriscava a ir ao banheiro sozinho; jogar maria mijona na roupa dos colegas, aprender as manhas do truco com os mais experientes. E ainda tinha a Loira do Cemitério; os gêmeos que gostam de doce em dia especial; as ciganas que colocavam criança no saco. Na fazenda, escondia-se do Saci, da Mula-sem-Cabeça, do Curupira, do Boitatá. Do coelho de pelo colorido, da jiboia que toma leite de gestante, do cachorro louco – que uiva nas luas da época do agouro.

O folclore brasileiro está desaparecendo. Pode até ter morrido em alguns cantos do país. Os personagens sumiram do mapa, na temporada em que a Galinha Pintadinha e a porquinha Peppa reinam nos computadores ao lado das princesas da Disney. Saudosismo? Nostalgia? Os tempos mudaram, alguém pode afirmar ao responder as questões. Sentimento de tristeza ao notar que a cultura nativa está perdendo valor. Os caipiras das quadrilhas juninas se modernizaram: usam smartphones, óculos de marcas famosas, calças rasgadas da moda, intituladas destroyed jeans. A globalização é boa, mas tornou a aldeia um espaço de identidade estrangeira. A essência dos tupiniquins está perdida.

Não é para discutir política, gritar fora ou fica Presidente da República. Contudo, as decisões tomadas pelos governantes atingem a população e suas fragilidades, suas ignorâncias. O cenário merece uma reflexão, quando se percebe que não existe verba para a educação, para a saúde, para o investimento nas melhorias sociais. No entanto, o dinheiro aparece para que deputados participem de um jogo de poder, de permanência nele. Onde estava essa grana? Não há algo de errado nisso? A bufunfa brotou em árvores, de repente? Ou será mais conveniente deixar o povo à margem, sem conhecimento, tratando-os como burros, no palavreado típico do bullying escolar? Burros abaixam a orelha e aceitam obras faraônicas como se fossem as mais altas necessidades para a sobrevivência. Não tem creche para o filho, mas contenta-se com a passarela para atravessar o asfalto. Obra aparece na foto com plaquinha de inauguração, não é mesmo?

Não se assuste com os zumbis drogados que andam nas cracolândias nem com os vampiros sugando tudo do povo. Não se importe com os pedidos de travessuras ou doces nos ônibus lotados. Afinal, o show de horrores é típico do Halloween, festa folclórica que já está no calendário do Brasil. Vive-se em um mundo de sombras, em guerras de interesses. Período mascarado pelo incentivo ao consumo exagerado. Enquanto no Planalto Central nadam na mordomia, dizem nas entrevistas, que a crise é dura, culpa dos outros. Acredite: tudo que se falou aqui é folclore. Nada existe. Em agosto, os ventos sopraram diferente.

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